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Indulto presidencial na Hungria desencadeia crise e eleva Tisza ao poder, encerrando era Orbán

BeeNews 12/04/2026 | 22:22 | Brasília
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A Hungria testemunhou uma reviravolta política significativa, impulsionada por um escândalo de indulto presidencial que, inicialmente discreto, culminou na ascensão de um novo partido e na derrota do governo de Viktor Orbán. O caso, revelado em fevereiro de 2024, expôs uma decisão presidencial que gerou indignação pública e reconfigurou o cenário político do país, abrindo caminho para o Partido Tisza.

Este evento não apenas provocou renúncias de figuras políticas proeminentes, mas também reativou uma legenda que estava inativa, transformando-a em uma força dominante nas recentes eleições parlamentares. A crise demonstrou o poder da opinião pública e a capacidade de um incidente isolado de catalisar mudanças profundas na estrutura de poder de uma nação.

A Gênese do Escândalo e a Crise Política

Em abril de 2023, a então presidente da Hungria, Katalin Novák, assinou uma lista de 25 indultos presidenciais, um ato que, à época, parecia protocolar e coincidia com a visita do Papa Francisco ao país. Entre os beneficiados estava um ex-subdiretor de um orfanato estatal de Budapeste, condenado por coagir crianças a retirar denúncias de abuso sexual contra o diretor da instituição.

A revelação do caso pelo portal independente 444.hu, em 2 de fevereiro de 2024, mergulhou a Hungria em uma profunda crise política. A repercussão levou a manifestações massivas e à renúncia de Novák, que admitiu ter cometido um “erro”. Paralelamente, a ministra da Justiça, Judit Varga, que havia referendado o indulto, também deixou seu cargo e sua posição como cabeça de lista do Fidesz nas eleições europeias. Ambas eram consideradas figuras femininas poderosas no partido de Orbán, e suas saídas representaram um golpe considerável para o governo conservador.

O Renascimento do Tisza e a Ascensão de Péter Magyar

O Partido Tisza, de centro-direita, foi fundado em 23 de outubro de 2020, com o nome que significa “respeito e liberdade” em húngaro e também remete ao segundo maior rio do país. Por anos, a legenda operou sem financiamento estatal, dependendo de doações, e permaneceu inativa após não conseguir disputar as eleições parlamentares de 2022.

O cenário mudou drasticamente com o escândalo do indulto. Péter Magyar, uma figura com raízes no próprio Fidesz e ex-marido de Judit Varga, emergiu publicamente para criticar a gestão do caso. Ele rompeu com o Fidesz, acusando o governo de usar Novák e Varga como “bodes expiatórios” e denunciando um “sistema político marcado por corrupção” na Hungria. Dias depois de suas declarações, Magyar assumiu o controle do Tisza, injetando um novo movimento político e uma base de voluntários na legenda, que então “começou a correr”.

A Estratégia de Campanha e a Vitória Esmagadora

Com apenas três meses de existência reorganizada sob a liderança de Magyar, o Tisza fez sua estreia nas eleições para o Parlamento Europeu em junho de 2024, obtendo um impressionante resultado de 29,6% dos votos e elegendo sete deputados. Este desempenho notável para um partido recém-reativado marcou sua entrada no grupo de centro-direita europeu Partido Popular Europeu, bloco que o Fidesz havia deixado anos antes.

A partir desse momento, o Tisza profissionalizou-se rapidamente, estabelecendo uma rede comunitária nacional, as “Tisza Szigetek” (Ilhas Tisza), que alcançou diversas localidades. Magyar percorreu cerca de 500 municípios, incluindo vilarejos tradicionalmente leais ao Fidesz. No pleito decisivo, o Tisza conquistou mais de 53% dos votos e 138 das 199 cadeiras do Parlamento húngaro, garantindo uma supermaioria que lhe confere poder para reformar a Constituição e reconstruir instituições que, segundo analistas, foram enfraquecidas ao longo de 16 anos de governo Orbán, como a mídia e o Poder Judiciário. A vitória foi celebrada pelos apoiadores com o grito “Árad a Tisza!” — “O Tisza está transbordando!”

As Propostas do Tisza e o Novo Rumo da Hungria

O Tisza, sob a liderança de Péter Magyar, posiciona-se como um partido de centro-direita, mas com diferenças notáveis em relação ao Fidesz de Orbán, especialmente na política externa. Enquanto o governo anterior cultivava laços estreitos com a Rússia e bloqueava decisões da União Europeia em apoio à Ucrânia, o Tisza promete uma ruptura com esse alinhamento.

Entre seus compromissos, destacam-se a redução da dependência energética da Hungria em relação à Rússia até 2035 e o realinhamento do país com a União Europeia, da qual Budapeste se afastou progressivamente. Magyar defende uma postura mais favorável à Ucrânia, embora mantenha a posição de não enviar armas a Kiev. A vitória do Tisza foi bem recebida por líderes europeus, como a presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, que expressou a expectativa de que a Hungria restabeleça a confiança mútua dentro do bloco.

Fonte: gazetadopovo.com.br

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