Uma revelação arqueológica de grande impacto promete reescrever parte da história das peregrinações medievais. Em 2025, uma equipe internacional de pesquisadores conseguiu decifrar dezenas de inscrições antigas, até então invisíveis a olho nu, nas paredes da Sala da Última Ceia, um dos locais mais sagrados do cristianismo em Jerusalém. Os achados oferecem uma janela inédita para a diversidade de visitantes que, ao longo dos séculos, deixaram suas marcas de fé e devoção neste espaço milenar.
A descoberta, fruto da colaboração entre a Academia Austríaca de Ciências (ÖAW) e a Autoridade de Antiguidades de Israel (IAA), ilumina a presença de peregrinos de diversas partes do mundo medieval, incluindo nobres europeus e cristãos do Oriente Médio. As inscrições, símbolos religiosos e brasões de família não apenas confirmam a importância do local, mas também ampliam nossa compreensão sobre as complexas rotas e motivações dos viajantes da Idade Média.
Revelações históricas na Sala da Última Ceia
No coração do Monte Sião, em Jerusalém, o Cenáculo – tradicionalmente venerado como o local da Última Ceia de Jesus com seus apóstolos – guardava segredos por séculos. Os especialistas identificaram cerca de 40 elementos de grafite antigo, que incluem desde assinaturas e mensagens até desenhos e símbolos religiosos. Estes registros, embora desgastados pelo tempo, foram meticulosamente revelados graças a técnicas avançadas de imagem.
Entre os achados mais significativos estão cinco brasões de famílias nobres europeias, que atestam a presença de comitivas de alto escalão. Além disso, uma variedade de inscrições em diferentes idiomas e símbolos cristãos, como representações de um cálice, um prato e um pão redondo, fornecem detalhes sobre os rituais e a iconografia da época.
Conexões europeias e orientais em Jerusalém medieval
As inscrições medievais desvendadas revelam uma rede de conexões que se estendia por vastas regiões. Um dos destaques é um brasão associado à região da Estíria, na atual Áustria, atribuído ao nobre Tristram von Teuffenbach. Ele fez parte de uma grande peregrinação a Jerusalém em 1436, liderada pelo arquiduque Frederico III, futuro imperador do Sacro Império Romano-Germânico, que reuniu cerca de cem nobres em sua jornada pela Terra Santa.
Outra descoberta crucial é uma inscrição armênia com a data “Natal de 1300“, que pode ajudar a resolver um debate histórico sobre a possível passagem do rei armênio Het’um II por Jerusalém. Curiosamente, o maior volume de grafites foi deixado por cristãos de língua árabe do Oriente Médio, incluindo um fragmento em árabe que menciona “…ya al-Ḥalabīya”, indicando uma rara peregrina cristã da cidade de Aleppo, na Síria. Essa diversidade desafia a visão tradicional, muitas vezes centrada em fontes ocidentais, sobre a composição dos peregrinos medievais.
Tecnologia de ponta para desvendar o passado
A complexidade e o desgaste das inscrições exigiram o uso de tecnologias de ponta para sua decifração. Os pesquisadores empregaram uma combinação de fotografia multiespectral e a técnica de Imagem de Transformação de Reflectância (RTI). Este método inovador permite registrar a superfície das paredes sob múltiplos ângulos de iluminação, realçando marcas e texturas que são imperceptíveis a olho nu.
Após a documentação no local, as imagens foram submetidas a uma análise laboratorial rigorosa. A combinação digital dos registros fotográficos permitiu que as inscrições fossem tornadas legíveis, revelando detalhes que permaneceram ocultos por séculos e oferecendo uma nova perspectiva sobre a história do Cenáculo.
Um legado de fé e devoção de peregrinos
Para o historiador Ilya Berkovich, membro da equipe de pesquisa, o conjunto dessas inscrições oferece um retrato muito mais abrangente da circulação de peregrinos na Jerusalém medieval. “Quando analisadas em conjunto, as inscrições fornecem uma visão única sobre a origem geográfica dos peregrinos. Essa diversidade era muito maior do que sugeria a perspectiva tradicional da pesquisa, dominada por fontes ocidentais”, afirmou.
Esses grafites transcendem a mera curiosidade, constituindo um valioso patrimônio histórico religioso. Eles são testemunhos diretos da devoção, das experiências e das jornadas de fé de incontáveis indivíduos que cruzaram continentes para visitar os locais sagrados do cristianismo. A Sala da Última Ceia, com suas paredes agora falantes, continua a ser um elo vital entre o passado e o presente, revelando a profunda conexão humana com a fé ao longo da história.
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Fonte: gazetadopovo.com.br
