Em meio às complexas e delicadas negociações para a resolução de conflitos entre Irã, Estados Unidos e Israel, uma facção ultrarradical dentro do regime iraniano tem emergido como um obstáculo significativo. Conhecida como Frente de Sustentabilidade da Revolução Islâmica, ou Frente Paydari, este grupo defende de forma intransigente os princípios da ditadura islâmica estabelecida no país persa em 1979, complicando os esforços diplomáticos e gerando preocupações sobre o futuro da estabilidade regional.
A atuação da Frente Paydari, que se distingue por ser ainda mais linha-dura do que outras correntes dentro do próprio regime extremista, tem sido apontada como um fator de sabotagem nas tentativas de acordo. Sua crescente influência e a postura inflexível de seus membros representam um desafio considerável para qualquer avanço nas conversas, que visam encerrar o atual conflito e redefinir as relações geopolíticas.
Ascensão da Paydari: ideologia e influência no regime iraniano
A Frente Paydari, inicialmente concebida como uma lista eleitoral para as eleições legislativas de 2012, consolidou-se ao longo dos anos como uma força política com ampla influência no Irã. Sua arquitetura ideológica foi moldada por Mohammad-Taqi Mesbah-Yazdi, que faleceu em 2021 e é considerado o mentor intelectual do grupo. A visão de Mesbah-Yazdi prega uma adesão rigorosa aos preceitos da Revolução Islâmica, sem concessões.
A ascensão de Mojtaba Khamenei ao posto de novo líder supremo iraniano, após a morte de seu pai, Ali Khamenei, no primeiro dia do atual conflito em 28 de fevereiro, fortaleceu ainda mais a Paydari. Mojtaba, que foi discípulo de Mesbah-Yazdi, é amplamente visto como o principal patrono político e financeiro da facção. Membros da Paydari o consideram o garantidor da identidade revolucionária da República Islâmica, sucedendo seu pai.
A influência da Paydari estende-se também às forças armadas. Uma reportagem de 2024 da The Economist revelou que a geração mais recente de comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica frequentou acampamentos de verão dirigidos por clérigos da Frente Paydari. Muitos desses clérigos também são designados para unidades militares iranianas, resultando em uma Guarda Revolucionária “mais ideológica e agressiva, menos experiente e menos pragmática”, conforme observou Saeid Golkar, especialista da Universidade do Tennessee.
A estratégia de sabotagem e oposição aos acordos com os EUA
Apesar de sua postura ultrarradical, a Frente Paydari foi convidada a participar das negociações com os Estados Unidos realizadas no Paquistão em abril. O convite visava demonstrar uma coesão interna no Irã, mas a facção tem utilizado essa oportunidade para sabotar ativamente as conversas, buscando impedir a concretização de qualquer acordo.
A oposição da Paydari é vocal e explícita. No início de maio, o site Raja News, porta-voz da facção, publicou um artigo defendendo a interrupção das negociações. O texto criticava a disposição de alguns iranianos em dialogar, enquanto líderes americanos e israelenses, como Donald Trump e Benjamin Netanyahu, proferiam ameaças contra autoridades iranianas.
No cenário político interno, o deputado Seyyed Mahmoud Naboyan, integrante da Frente Paydari, utilizou a plataforma X para criticar a participação de representantes iranianos envolvidos no acordo nuclear de 2015 – do qual os EUA se retiraram na primeira gestão Trump – nas novas conversas. Naboyan também alfinetou o presidente do Parlamento iraniano, Mohammad Bagher Ghalibaf, um dos líderes nas negociações e desafeto da Paydari, argumentando que o histórico de descumprimento dos EUA e a presença de Ghalibaf minam a esperança de um acordo favorável ao Irã.
Fatores que impulsionam o poder da Frente Paydari
A ascensão da Frente Paydari a uma posição de maior proeminência e influência pode ser atribuída a dois fatores principais, conforme análise de Sandro Teixeira Moita, professor do programa de pós-graduação em ciências militares da Escola de Comando e Estado-Maior do Exército (Eceme). O primeiro é o patrocínio de Mojtaba Khamenei, que encoraja o grupo a expressar sua agenda radical de forma mais contundente.
O segundo fator é a eliminação de diversas lideranças e grande parte da cúpula do regime islâmico durante o conflito. Essa lacuna abriu espaço para que membros da facção integrassem a delegação iraniana nas negociações com os EUA no Paquistão. A postura da Paydari é de oposição a um acordo que implique concessões, embora não a um “entendimento” que, em sua visão, exigiria a “capitulação” dos EUA frente ao Irã.
O futuro do Irã sob a sombra da Paydari
Embora a Frente Paydari seja descrita como “muito barulhenta”, Sandro Teixeira Moita ressalta que ela ainda é “muito marginal” e, por enquanto, está sendo contida por figuras importantes do regime, como Ghalibaf. No entanto, o especialista alerta para o grande risco que a facção representa para o futuro do Irã e para a estabilidade global.
A visão da Paydari vai além do conflito atual. Desde sua origem, o grupo defende uma “guerra moral” contra o Ocidente, impulsionada por uma perspectiva apocalíptica. Seus membros acreditam que o avanço do processo revolucionário só será possível por meio de uma confrontação generalizada, em todos os campos, capaz de transformar o mundo. Essa ideologia intransigente e confrontacional sugere que, mesmo que o conflito atual termine, a hostilidade da Frente Paydari persistirá, mantendo a tensão e a incerteza no cenário geopolítico, conforme apontado por análises de especialistas em relações internacionais como Chatham House.
Fonte: gazetadopovo.com.br
