A resistência do Irã e os impactos no comércio global de petróleo estariam pressionando os Estados Unidos a encerrar o conflito sem alcançar o objetivo de “mudança de regime” em Teerã.
Especialistas consultados pela Agência Brasil avaliam que a capacidade de retaliação iraniana, incluindo ataques a sistemas de radares dos EUA no Oriente Médio e os efeitos sobre a cadeia do petróleo, está forçando a Casa Branca a reconsiderar seus objetivos. A complexidade do terreno iraniano e a possibilidade de baixas significativas em caso de invasão terrestre tornam a derrubada do governo de Teerã uma tarefa árdua para os Estados Unidos.
A degradação da cobertura de radares e satélites dos EUA, responsável pela interceptação de mísseis iranianos, aumenta o risco de baixas e diminui o tempo de alerta para aliados como Israel. Essa situação, aliada à pressão econômica sobre o preço do petróleo, estaria levando aliados de Washington no Golfo a pedir o fim do conflito, buscando estabilidade e segurança internacional.
A expectativa inicial dos EUA de uma rápida troca de regime após a morte do líder supremo Ali Khamenei não se concretizou. O Irã demonstrou uma resiliência maior do que o esperado, com a escolha de um novo líder supremo que sinaliza a continuidade da linha política do regime. Essa persistência iraniana, somada às preocupações com o aumento do preço dos combustíveis nos EUA e no mundo, pode levar a uma mudança no foco da estratégia americana, afastando a perspectiva de uma guerra prolongada.
Conforme análise de imagens de satélites e vídeos divulgados pelo jornal New York Times, há relatos de radares atingidos no Kuwait, Catar, Arábia Saudita, Bahrein e Emirados Árabes Unidos. O professor de relações internacionais Alexandre Pires, do Ibmec São Paulo, destacou que o Irã conseguiu afetar a cadeia do petróleo ao bloquear canais comerciais vitais como o Golfo Pérsico, o Estreito de Ormuz e o Golfo de Omã.
Aliados Pedem Fim da Tensão no Golfo
A pressão para um desfecho pacífico ganha força entre os aliados dos Estados Unidos na região. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores do Catar, Majed al-Ansari, declarou à Al Jazeera que “chegar rapidamente à mesa de negociações e suspender os ataques serviria aos interesses dos povos da região, bem como à paz e segurança internacionais, além de fortalecer a estabilidade econômica global”.
Essa postura reflete a preocupação com a instabilidade gerada pelo conflito. A interrupção do fluxo de petróleo e a incerteza geopolítica afetam diretamente a economia mundial, pressionando líderes a buscarem soluções diplomáticas.
Israel em Posição Delicada
Para o especialista Alexandre Pires, Israel pode resistir ao fim imediato do conflito, buscando enfraquecer o Irã ao máximo. No entanto, o ministro das Relações Exteriores de Israel, Gideon Saar, afirmou em entrevista que o país “não está buscando uma guerra sem fim” e que consultará os aliados americanos quando considerar o momento oportuno. Essa declaração sugere uma possível divisão entre os aliados quanto à estratégia a ser adotada.
A capacidade do Irã de afetar a cadeia energética global através do bloqueio de rotas comerciais é um fator crucial. Essa ação força uma negociação entre EUA e Israel, em razão da pressão internacional sobre a estabilidade energética mundial.
Reconfiguração do Poder no Oriente Médio
O cientista político Ali Ramos aponta que a manutenção do regime iraniano, apesar dos ataques a bases americanas, representaria uma derrota para a Casa Branca e abalaria a confiança dos países da região na segurança oferecida pelos EUA. “O Irã vai ser o primeiro país da história que atacou tantas bases dos EUA ao mesmo tempo e sobreviveu. É por isso o desespero do Trump”, afirmou Ramos.
Essa situação pode levar a uma reconfiguração da arquitetura de poder e segurança no Oriente Médio. A percepção de que as bases americanas na região não seriam capazes de defender aliados pode impulsionar acordos de defesa bilaterais, como os já firmados pelos Emirados Árabes Unidos com a Índia e pela Arábia Saudita com o Paquistão.
A declaração de Donald Trump sobre a possibilidade de negociar com Teerã, mesmo não estando satisfeito com a escolha do novo líder supremo iraniano, sinaliza uma abertura para o diálogo. Essa postura, aliada à pressão econômica e militar, pode ser o caminho para encerrar o conflito sem atingir o objetivo inicial de mudança de regime.
