A menos de dois meses para o início da Copa do Mundo de 2026, que será co-organizada por Estados Unidos, Canadá e México, o país anfitrião enfrenta crescentes desafios. Com a partida de abertura programada para o icônico Estádio Azteca, na Cidade do México, a preparação mexicana é marcada por preocupações com a segurança pública e atrasos significativos em projetos de infraestrutura cruciais para o torneio.
Este cenário tumultuado levanta questionamentos sobre a capacidade do México de sediar o evento global, 40 anos após sua última edição no país. A conjunção de incidentes violentos, obras atrasadas e ameaças de protestos cria um ambiente de incerteza às vésperas de um dos maiores espetáculos esportivos do mundo.
Crescente preocupação com a segurança no México
A segurança no México tem sido um ponto de grande apreensão, com incidentes recentes que chamaram a atenção internacional. Em maio, uma turista canadense foi morta e treze pessoas ficaram feridas em um ataque a tiros no complexo de pirâmides de Teotihuacán, um dos principais pontos turísticos do país. Este evento somou-se a uma escalada de violência registrada em fevereiro, após a suposta morte de “El Mencho”, líder do Cartel Jalisco Nova Geração (CJNG).
A onda de violência de fevereiro resultou em dezenas de mortes, incluindo membros de cartéis e soldados da Guarda Nacional, além de prisões e bloqueios de rodovias em diversos estados. Apesar dos discursos oficiais que afirmam o preparo do país, o secretário de Segurança do México, Omar García Harfuch, anunciou um reforço no policiamento, inclusive em sítios arqueológicos e áreas relacionadas à Copa do Mundo. No entanto, especialistas como David Saucedo, analista político e consultor de segurança, expressam ceticismo, afirmando que o México não está em condições de garantir a segurança completa devido a uma “violência estrutural e sistemática”.
Avanço das obras e desafios de infraestrutura
Além das questões de segurança, a infraestrutura para a Copa do Mundo também apresenta desafios consideráveis. O Estádio Azteca, palco da partida inaugural, passou por um período de reformas e chegou a ter sua exclusão do torneio cogitada devido a atrasos. Embora tenha sido reinaugurado em março após 671 dias fechado, o estádio ainda possui uma tribuna inferior incompleta e obras em andamento no seu exterior.
Outros projetos importantes também enfrentam reajustes e atrasos. A passarela que conectará o Estádio Azteca ao Terminal Multimodal de Transferência de Huipulco teve seu orçamento mais que dobrado e a conclusão, prevista para março, foi adiada para o final de maio. Similarmente, a construção do mercado do terminal de Huipulco também teve seu prazo estendido para maio, evidenciando a corrida contra o tempo para finalizar as obras antes do início do Mundial.
Potenciais protestos e o impacto na organização do Mundial
A organização do Mundial no México também lida com a ameaça de possíveis protestos que podem afetar a logística e a imagem do evento. Profissionais do sexo, que atuavam nas proximidades do Estádio Azteca e foram deslocadas devido às obras, prometeram bloquear avenidas e a Linha 2 do metrô da Cidade do México durante a Copa, caso não sejam autorizadas a retornar ao local.
Paralelamente, a Coordenação Nacional dos Trabalhadores da Educação (CNTE) também ameaçou realizar bloqueios em avenidas próximas aos estádios e fechar rodovias durante o torneio, caso suas reivindicações trabalhistas não sejam atendidas. Essas mobilizações podem gerar transtornos significativos para torcedores e equipes, adicionando uma camada extra de complexidade à já desafiadora preparação.
Análise de especialistas: imagem e geopolítica em jogo
A professora Fernanda Brandão, coordenadora de Relações Internacionais da Faculdade Presbiteriana Mackenzie Rio, ressalta que os episódios recentes de violência não apenas aumentam a preocupação com a segurança, mas também enfraquecem o discurso presidencial mexicano, que foca na restauração da ordem. Para Brandão, a questão do controle da violência tem implicações geopolíticas, especialmente no contexto dos esforços dos Estados Unidos para consolidar sua influência na América Latina e sua postura em relação aos cartéis de drogas. Eventos violentos que demonstrem a força desses grupos podem, segundo a especialista, servir de pretexto para uma possível intervenção externa.
João Alfredo Lopes Nyegray, professor de geopolítica da Pontifícia Universidade Católica do Paraná (PUCPR), complementa que o ataque em Teotihuacán “muda a geografia do risco” no México, ao demonstrar que a violência não está restrita a regiões de disputa de cartéis, mas atinge locais turísticos simbólicos. Este incidente, segundo Nyegray, pode impactar negativamente o setor turístico do país a longo prazo, afetando a percepção de segurança para visitantes internacionais.
Limites do “sportswashing” diante da realidade mexicana
A estratégia de “sportswashing”, que visa usar grandes eventos esportivos para projetar uma imagem positiva e desviar a atenção de problemas internos, enfrenta limites claros no México. João Alfredo Lopes Nyegray argumenta que, ao contrário de países como Catar e China, que possuem controle centralizado do território e baixa tolerância ao dissenso, o México é uma democracia com pluralidade institucional e convive com atores não estatais armados.
Essa realidade impede que o México “blinde completamente a narrativa” através do sportswashing. Nyegray prevê que, embora a atenção global seja capturada durante o evento, as críticas e os problemas de criminalidade reaparecerão após a Copa, dissipando qualquer ganho reputacional. A complexa situação de segurança e infraestrutura do México, portanto, serve como um lembrete dos desafios inerentes à organização de um evento de tal magnitude em um contexto de instabilidade.
Fonte: gazetadopovo.com.br
