EUA e Israel intensificam agressões contra o Irã, apontam analistas em busca de deter China e projetar hegemonia israelense no Oriente Médio.
A recente escalada de ações militares por parte dos Estados Unidos e de Israel contra o Irã, ocorrendo em um curto intervalo de tempo, está sendo interpretada por especialistas como uma estratégia multifacetada. O objetivo principal, segundo esses analistas, seria promover uma ‘troca de regime’ em Teerã, visando frear a crescente influência econômica da China, vista como um desafio por Washington, e ao mesmo tempo consolidar a supremacia política e militar de Israel na região do Oriente Médio.
Essa avaliação diverge do discurso oficial apresentado pelos EUA e por Israel, que justificam os ataques como medidas ‘preventivas’ contra um suposto programa nuclear iraniano voltado para a fabricação de armas atômicas. No entanto, acadêmicos e pesquisadores em geopolítica e relações internacionais consultados pela Agência Brasil contestam essa narrativa, sugerindo motivações mais profundas.
O avanço diplomático que antecedeu os ataques, mediado por Omã, indicava um acordo iminente para limitar o programa nuclear iraniano, com o Irã concordando em não estocar urânio enriquecido. A decisão de iniciar a guerra neste momento, quando a paz parecia ao alcance, levanta sérias questões sobre as verdadeiras intenções por trás da ofensiva, conforme detalhado abaixo.
Contenção da China e Busca por Hegemonia Regional
A professora de relações internacionais da PUC Minas, Rashmi Singh, destaca que os enviados de Trump ao Oriente Médio foram desmentidos pelo ministro das Relações Exteriores de Omã, Badr bin Hamad Albusaidi. Albusaidi afirmou que o acordo para limitar o programa nuclear de Teerã estava próximo, e que o Irã aceitou não manter em estoque qualquer quantidade de urânio enriquecido, material essencial para a fabricação de artefatos nucleares.
“Os EUA e Israel entraram em guerra quando um avanço diplomático e a paz estavam ao alcance. Então, por que agora? Tanto os EUA quanto Israel acreditam que o Irã está fraco e veem isso como uma oportunidade estratégica para instalar um governo mais moderado no país”, explicou Singh. Para ela, o objetivo seria instalar um governo ‘fantoche’ de Washington no Irã, eliminando um obstáculo à hegemonia de Israel.
Singh também ressalta o contexto político interno de Israel, com Netanyahu enfrentando eleições gerais. Ela sugere que o conflito com o Irã pode ser usado para fortalecer sua posição política, comparando a situação com ações anteriores em Gaza contra o Hamas, onde, segundo ela, Netanyahu utilizou a guerra para se manter no poder e escapar da justiça.
Disputa por Poder e Influência Econômica
Robson Valdez, professor de relações internacionais do IDP, concorda que a justificativa de ‘contenção nuclear’ é frágil. Ele aponta que o cerne da questão reside na disputa pelo equilíbrio de poder no Oriente Médio, com Israel e EUA buscando conter a influência regional do Irã.
“[A guerra] pode afetar especialmente a China, grande importadora do petróleo iraniano, que passa ali pelo Estreito de Ormuz. O conflito combina essa contenção estratégica em relação ao Irã, e também a eterna e tradicional rivalidade regional envolvendo Israel, Turquia, Irã e Arábia Saudita, e, mais recentemente, também os Emirados Árabes Unidos”, ponderou Valdez.
Ali Ramos, cientista político e especialista em geopolítica, argumenta que a nova investida contra Teerã se tornou necessária após Israel não conseguir derrubar o governo iraniano na guerra de 2025. A presença de mísseis balísticos e drones iranianos impede a supremacia estratégica regional de Israel, que pode ser atingida.
Ramos acrescenta que o Irã é crucial para o projeto geoeconômico chinês. Se o Irã cair, armas podem voltar às mãos do Partido Islâmico do Turquestão Oriental, que historicamente arma os uigures em luta contra Pequim. Um Irã alinhado ao ocidente também facilitaria o sufocamento e a sabotagem dos projetos de infraestrutura da China na Ásia Central.
Contexto de ‘Guerra Comercial’ e Imperialismo
Para Rodolfo Queiroz Laterza, historiador de conflitos armados, os EUA buscam retirar o Irã da rota econômica e comercial construída pela China e pela Rússia na Eurásia. A guerra contra o Irã deve ser vista no contexto mais amplo da disputa pela supremacia econômica global entre Washington e Pequim.
O Irã é o quinto maior produtor de petróleo do mundo e disputa a terceira posição em reservas comprovadas de hidrocarbonetos. Mohammed Nadir, professor da UFABC, descarta a justificativa de ‘ameaça nuclear’ e vê o conflito como uma guerra de Benjamin Netanyahu e de Israel para se tornarem hegemônicos incontestáveis no Oriente Médio, com o apoio dos EUA.
Roberto Goulart Menezes, professor da UnB, afirma que os EUA usam o programa nuclear iraniano como pretexto há mais de meio século. Ele lembra que o Irã faz parte do Tratado de Não Proliferação Nuclear e está sujeito a inspeções da Agência Internacional de Energia Atômica, tendo sempre colaborado.
Menezes avalia que os EUA querem redesenhar o mapa geopolítico do Oriente Médio, aplicando uma política agressiva e imperialista, como declarou Trump sobre governos hostis aos EUA não permanecerem no poder. O imperialismo, segundo o sociólogo Raphael Seabra, ocorre quando um país central utiliza seu poder para subordinar países periféricos aos seus interesses.
Entenda o Conflito
Esta é a segunda agressão contra o Irã em oito meses, em meio a negociações sobre seu programa nuclear e balístico. Os EUA abandonaram o acordo de 2015, sob o governo Obama, para inspeção internacional do programa nuclear iraniano, acusando Teerã de buscar armas nucleares, enquanto o Irã defende fins pacíficos e se mostra à disposição para inspeções. Israel, por sua vez, mesmo acusado de possuir bombas atômicas, nunca permitiu inspeções em seu programa nuclear.
Trump, em seu segundo mandato, iniciou nova ofensiva exigindo o desmantelamento do programa nuclear, o fim do programa de mísseis balísticos e o fim do apoio a grupos como Hamas e Hezbollah. A proximidade de um acordo, anunciada por Omã um dia antes da agressão, com a concordância iraniana em não estocar urânio enriquecido, adiciona complexidade ao cenário.
As hostilidades atuais têm raízes em 1979, com a Revolução Islâmica, que derrubou um governo aliado de Washington, levando a sanções econômicas contra o Irã desde então.
