Policial Militar que viveu violência doméstica se torna voz de esperança no 190 e na rede de proteção a mulheres em SP
A cabo Kátia Cilene, uma figura inspiradora na Polícia Militar de São Paulo, trilhou um caminho de superação que a levou de vítima a protetora. Sua história pessoal, marcada pela violência doméstica, se entrelaça com sua atuação profissional, onde por quase três décadas, como uma das vozes no telefone 190, ouviu centenas de relatos de mulheres em desespero.
Hoje, Kátia integra a rede de proteção a vítimas de violência doméstica do Governo de SP, onde sua experiência de vida se tornou um pilar fundamental para o acolhimento e orientação de mulheres em situação de risco. Sua jornada é um testemunho de resiliência e um farol de esperança para muitas.
Essa trajetória de dedicação e empatia foi moldada por vivências próprias, que a permitiram compreender a profundidade do sofrimento de outras mulheres. Conforme divulgado pelo Governo de SP, Kátia transformou sua própria história em um diferencial no atendimento, inspirando e empoderando quem busca ajuda. A seguir, conheça os detalhes dessa inspiradora jornada.
A Coragem de Ingressar na Polícia Militar
Aos 19 anos, recém-chegada de Recife para a capital paulista, Kátia Cilene enfrentou episódios de violência em seu relacionamento. Um momento marcante ocorreu quando seu então marido reagiu com agressividade ao saber de sua aprovação no concurso da Polícia Militar, chegando a tentar jogá-la para fora do carro em meio a uma discussão em rodovia.
Antes de ingressar na corporação, Kátia era dona de casa e sofria com a violência psicológica do marido, que a impedia de trabalhar. A oportunidade surgiu quando, escondida de casa para procurar emprego, encontrou jovens que se inscreveriam para a “Polícia Feminina”, como era conhecida na época. Com apenas o dinheiro da passagem, Kátia realizou sua inscrição.
Ela se preparou para o concurso em segredo, temendo a reação do marido. Superou as etapas de seleção, provas e exames médicos, mantendo tudo em sigilo. A aprovação trouxe novas perspectivas, mas a notícia gerou agressividade em seu ex-marido. Mesmo assim, Kátia decidiu seguir com o curso de formação, conciliando os estudos com a rotina familiar e o cuidado dos filhos, com o apoio de sua tia e colegas de farda.
Anos de Atendimento no Copom e o Reconhecimento Tardio
Kátia concluiu o curso como quarta colocada e foi designada para o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), onde atuou por 28 anos no atendimento telefônico de emergências. Durante esse longo período, Kátia se tornou uma das vozes do telefone 190, ouvindo inúmeros pedidos de socorro, muitos deles de mulheres vítimas de violência doméstica.
Apesar de sua atuação na linha de frente, Kátia relata que levou anos para compreender plenamente as situações que havia vivenciado. O reconhecimento de sua própria história como vítima só ocorreu em 2023, ao participar da formação da Cabine Lilás, uma iniciativa voltada ao atendimento especializado de mulheres vítimas de violência.
Durante o curso, que contou com a participação de psicólogas, promotoras e defensoras públicas, Kátia pôde identificar os ciclos da violência doméstica. “Eu me identifiquei, eu sofri tudo aquilo por anos”, afirmou. Essa percepção a impulsionou a aprofundar seu trabalho de acolhimento.
A Cabine Lilás e o Empoderamento das Mulheres
Atuando por mais de um ano no atendimento da Cabine Lilás, Kátia ouvia relatos que ecoavam seu passado. Em muitas ligações, após ouvir sobre maridos, filhos e rotina familiar, ela fazia uma pergunta crucial: “Você falou do seu marido, dos seus filhos, mas e você?”. Essa indagação buscava resgatar a identidade de mulheres que, muitas vezes, se anulam dentro da própria família.
A Cabine Lilás reúne iniciativas do Governo de São Paulo para combater a violência contra a mulher. O atendimento, realizado por policiais femininas capacitadas, oferece privacidade e tempo para que as vítimas conversem, tirem dúvidas e recebam orientações sobre seus direitos e acesso a redes de apoio, como assistência jurídica, pensão alimentícia e vagas em abrigos.
Desde 2023, a Cabine Lilás realizou 25 mil atendimentos, resultando em 120 prisões em flagrante por descumprimento de medida protetiva. O projeto piloto, iniciado na capital paulista em março de 2024, treinou 104 policiais femininas para o atendimento em todo o estado.
Formação de Novos Profissionais e Legado de Esperança
Atualmente, próxima de completar 30 anos de serviço, Kátia Cilene atua na formação de novos policiais. Ela ministra aulas de Tecnologia, Informação e Comunicação na Escola Superior de Soldados e de Direitos Humanos no Comando de Policiamento de Choque.
Em suas aulas, Kátia ensina a importância de ser profissional e, ao mesmo tempo, humanizado. “Quem liga para o 190 está em um momento de desespero. Às vezes é a única chance que aquela pessoa tem”, comenta. Ela reforça que o atendimento deve ser empático e eficaz.
Ao relembrar sua trajetória, Kátia reconhece que as marcas da experiência vivida permanecem, mas destaca sua superação. “É uma ferida que fica”, diz, mas conclui com força: “Com todas as dificuldades, eu venci. Não sozinha, tive Deus, minha tia, colegas e meus filhos, mas eu venci.” Seu legado é um poderoso exemplo de que é possível transformar dor em força e lutar por um futuro mais seguro para todas as mulheres.
Conteúdo via: Governo de SP
