A atenção global se volta para Pequim, onde o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, e o presidente da China, Xi Jinping, se encontraram na noite desta quarta-feira (13), no horário de Brasília. Este encontro crucial ocorre em um cenário de intensas tensões geopolíticas, marcadas pela prolongada guerra no Irã, que continua a desestabilizar as relações internacionais e a economia global. A reunião busca endereçar não apenas a crise no Oriente Médio, mas também as complexas disputas comerciais e tecnológicas que definem a relação entre as duas maiores economias do mundo.
Washington tem visto a ascensão econômica e tecnológica da China como um desafio à sua liderança global. Essa percepção levou à implementação de uma guerra tarifária por parte de Trump logo no início de seu segundo mandato, em abril de 2025. As consequências dessa disputa se estendem por diversos setores, desde a tecnologia até a segurança energética, impactando diretamente os interesses de ambas as nações e de seus parceiros comerciais.
A complexa agenda da cúpula entre China e EUA
A visita de Donald Trump à China, inicialmente agendada para o final de março, foi adiada devido à escalada da guerra no Oriente Médio. Este conflito, que teve início no final de fevereiro, não apenas desviou a atenção global, mas também alterou a dinâmica de poder esperada para a cúpula em Pequim. A guerra no Irã, que analistas sugerem ter entre seus objetivos barrar a expansão econômica da China na Ásia Ocidental e projetar Israel, colocou Trump em uma posição de menor força nas negociações.
A China, por sua vez, tem um interesse direto na estabilização do Oriente Médio. Como principal consumidora do petróleo iraniano, Pequim deseja a reabertura do Estreito de Ormuz, uma rota vital por onde transitavam 20% do petróleo mundial antes do conflito. A interrupção do fluxo impacta diretamente a segurança energética chinesa e a estabilidade econômica global.
Guerra no Irã e o enfraquecimento da posição de Washington
Analistas geopolíticos apontam que a ofensiva de Trump contra o Irã, ao invés de fortalecer sua posição, resultou em um cenário de desgaste. Marco Fernandes, membro do Conselho Popular do Brics, avaliou que Trump calculou mal a rapidez de uma vitória no Irã, chegando a Pequim em uma situação de enfraquecimento. “Ele achou que chegaria a Pequim com todas as cartas na mão para pressionar Xi, mas faltou combinar com os iranianos. Agora, Trump está chegando derrotado”, afirmou Fernandes.
Essa percepção de fraqueza é corroborada por observadores internacionais, que notam a dificuldade dos EUA em impor sua vontade no conflito. A China, em colaboração com a Rússia e o Irã, tem buscado uma solução pacífica para a guerra, o que seria um ponto central na agenda de Xi Jinping para o encontro. Essa triangulação diplomática demonstra a crescente influência de Pequim na mediação de crises globais.
Disputas comerciais e o estratégico papel das terras raras
A guerra tarifária iniciada por Trump em 2025 teve como alvo prioritário a China, vista como uma ameaça à liderança econômica e tecnológica dos EUA. A reação chinesa, que incluiu restrições à exportação de terras raras — minerais cruciais para setores como tecnologia e defesa —, forçou Washington a recuar em algumas de suas imposições. Mesmo diante das tarifas, a China conseguiu manter o crescimento de suas exportações, demonstrando resiliência econômica.
O tema das terras raras é um ponto nevrálgico nas discussões. Os EUA dependem significativamente de minerais como o samário e o neodímio, essenciais para a indústria bélica e tecnológica, e a China detém a liderança na produção desses insumos. Recentemente, a China começou a aplicar sua lei anti-sanções, aprovada em 2021, proibindo empresas locais de reconhecerem sanções impostas pelos EUA, especialmente aquelas relacionadas a negócios com o Irã. Essa medida sinaliza uma postura mais assertiva de Pequim nas relações sino-americanas.
Taiwan: um ponto de atrito persistente nas relações bilaterais
Outro ponto sensível na agenda é a questão de Taiwan. Donald Trump indicou que discutiria a venda de armas dos EUA para a província autônoma, que possui aspirações de independência política. Pequim adota a política de “uma só China” e se opõe veementemente a qualquer reconhecimento de Taiwan como independente. O porta-voz do Ministério das Relações Exteriores da China, Guo Jiakun, reiterou a “firme oposição” chinesa à venda de armas americanas para a região.
O professor de Relações Internacionais do Ibmec, José Luiz Niemeyer, avalia que a China cobrará os EUA para não incentivar a independência de Taiwan. A discussão se concentrará nos limites da atuação de cada potência em suas áreas de influência consideradas vitais. Enquanto os EUA reafirmam sua proeminência na América Latina, a China se consolidou como o principal parceiro comercial da maioria dos países sul-americanos, incluindo o Brasil, superando a influência americana que prevalecia até os anos 2000. Segundo Niemeyer, a China está em uma posição mais confortável nas negociações, o que sugere que o encontro pode trazer mais frutos para a agenda chinesa.
Oportunidades para o Brasil em meio à rivalidade global
A dinâmica das relações entre China e EUA tem implicações diretas para o Brasil, que mantém laços comerciais robustos com ambas as potências. A disputa por minerais críticos, como as terras raras, pode ser uma oportunidade estratégica para Brasília. O Brasil detém a segunda maior reserva mundial desses minerais, com cerca de 22%, ficando atrás apenas da China.
José Luiz Niemeyer sugere que o Brasil pode adotar uma “posição passiva estratégica”, aproveitando as crises de fornecimento entre EUA e China para exportar produtos em litígio, como os minerais de terras raras. Marco Fernandes, por sua vez, enfatiza a necessidade de o Brasil se posicionar de forma soberana nessa disputa, buscando acumular ganhos que sirvam aos interesses nacionais. A capacidade do país de navegar entre as duas superpotências será crucial para seu posicionamento no cenário global.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
