A Bolívia vive um período de intensa instabilidade política e social, com uma onda de protestos antigoverno que se intensificou significativamente. Nesta segunda-feira, o país registrou 23 bloqueios em rodovias, conforme levantamento da Administradora Boliviana de Estradas (ABC), pressionando pela renúncia do presidente Rodrigo Paz, que está há apenas seis meses no cargo. As manifestações, que ganharam força nas últimas semanas, culminaram na chegada de grandes marchas à capital, La Paz, gerando um cenário de tensão e desafios para a administração.
A mobilização popular reflete um descontentamento crescente com as políticas governamentais, transformando-se em uma revolta ampla que engloba diversos setores da sociedade. A situação atual não apenas paralisa importantes vias de transporte, mas também impacta diretamente o cotidiano dos cidadãos, com relatos de escassez de produtos essenciais.
Aumento da pressão e escassez em La Paz
A capital boliviana, La Paz, e seus arredores são o epicentro dos bloqueios, com 13 estradas fechadas por manifestantes. Além disso, rodovias que dão acesso a importantes cidades como Oruro, Potosí, Santa Cruz e Cochabamba também foram afetadas. Essa interrupção do tráfego tem provocado uma grave escassez de alimentos, combustíveis e outros insumos nos mercados da capital, elevando a preocupação da população.
A imprensa local acompanha de perto a movimentação de grupos de manifestantes que se reúnem nos arredores de La Paz, com a expectativa de que desçam em marcha para o centro da cidade, onde está localizada a sede do governo. A persistência dos bloqueios e a chegada de novas marchas indicam uma escalada contínua da pressão sobre o governo.
Confrontos e denúncias de repressão
O final de semana foi marcado por confrontos e repressão policial em diversos pontos da cidade de El Alto, na região metropolitana de La Paz. A Defensoria Pública da Bolívia informou que os incidentes resultaram em 47 prisões e cinco pessoas feridas. Além disso, grupos campesinos denunciam o assassinato de, pelo menos, dois manifestantes em El Alto, adicionando uma camada de gravidade à crise.
O defensor público Pedro Callisaya também relatou ataques e obstrução ao trabalho da imprensa, bem como confrontos entre manifestantes e moradores em alguns dos pontos de bloqueio. A Confederação Nacional de Mulheres “Bartolina Sisa”, uma das principais organizações camponesas do país, condenou a repressão, afirmando que o governo tem agido de forma violenta e criminosa, resultando em falecidos, feridos e detidos. A entidade acusa o presidente Rodrigo Paz de ter perdido as condições de governar a Bolívia.
Origens da revolta popular na Bolívia
A atual onda de protestos é o ápice de um descontentamento que vem se acumulando desde o início do mandato do presidente Rodrigo Paz, em dezembro de 2025, após quase 20 anos de hegemonia da esquerda no poder. Inicialmente, as manifestações foram impulsionadas por um decreto que retirava o subsídio à gasolina, gerando insatisfação generalizada.
A situação escalou ainda mais com a promulgação de uma lei sobre terras, que camponeses e indígenas acusaram de prejudicar pequenos agricultores em favor de grandes empresários do agronegócio. Embora o governo tenha alegado que a lei visava fortalecer a agricultura em meio a uma grave crise econômica, a pressão popular levou à sua revogação por Rodrigo Paz na semana passada. Contudo, a revogação não foi suficiente para acalmar os ânimos, e os protestos continuaram, ganhando novas adesões de setores como mineiros, professores e outros grupos sociais.
Acusações e defesa dos movimentos
Em meio à crescente tensão, o governo boliviano tem acusado movimentos populares de utilizarem armas de fogo, incluindo dinamites, durante as mobilizações. Um suposto vídeo dos Ponchos Vermelhos, um grupo campesino, mostrando indivíduos com espingardas em uma rodovia e proferindo gritos de “não temos medo” e “vamos defender a pátria”, foi divulgado para sustentar essas alegações.
O porta-voz da Presidência da Bolívia, José Luis Gálvez, atribuiu a incitação à violência a grupos ligados ao ex-presidente Evo Morales, alertando que qualquer pessoa que promova a violência ou porte armas será presa. Por sua vez, Evo Morales refutou as acusações, afirmando que os protestos são uma manifestação do povo boliviano e não de sua autoria. Ele criticou o governo pelo uso das Forças Armadas para reprimir a população e pela criminalização das marchas, comparando as táticas a “Operação Condor”. A Central Operária Boliviana (COB), principal central sindical do país, também denunciou a prisão de lideranças e convocou a população a manter-se nas ruas, resistindo à tentativa de silenciar os movimentos sociais.
Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br
