Em um movimento que sublinha as crescentes tensões geopolíticas e a reconfiguração das alianças globais, os líderes da China, Xi Jinping, e da Rússia, Vladimir Putin, se encontraram em Pequim para fortalecer laços e emitir uma declaração conjunta que critica abertamente a política externa dos Estados Unidos. O encontro, realizado no Grande Salão do Povo, ocorreu menos de uma semana após Xi Jinping ter recebido o presidente norte-americano, Donald Trump, adicionando uma camada de complexidade às relações internacionais.
A cúpula entre os dois chefes de estado não apenas reafirmou a “coordenação estratégica abrangente” entre as duas nações, mas também serviu como plataforma para expressar uma visão compartilhada de um sistema global que se afasta da hegemonia unilateral. A retórica adotada por Pequim e Moscou sinaliza uma postura mais assertiva na arena internacional, buscando moldar uma ordem mundial mais equilibrada e com múltiplos centros de poder.
Pequim e Moscou consolidam visão de mundo multipolar
Durante o encontro em Pequim, Xi Jinping e Vladimir Putin assinaram aproximadamente 20 declarações, acordos e memorandos de entendimento que abrangem uma vasta gama de áreas. Entre os temas centrais, destacam-se o fortalecimento da cooperação estratégica, a promoção de relações de boa vizinhança e amizade, e o objetivo explícito de estabelecer um “mundo multipolar”.
Os acordos também detalham a cooperação em setores cruciais como científico-técnico e energético, além de iniciativas para a formação de quadros profissionais, políticas antitruste e transporte ferroviário. Putin enfatizou a importância de expandir a cooperação bilateral e a participação ativa em fóruns internacionais, visando construir uma base sólida para essa nova ordem global.
Críticas diretas à política externa dos Estados Unidos
A declaração conjunta dos líderes chinês e russo não poupou críticas aos Estados Unidos, acusando Washington de ser a fonte de instabilidade geopolítica. Xi Jinping afirmou que a situação internacional é marcada por “turbulência e transformação interligadas”, enquanto “correntes hegemônicas unilaterais estão desenfreadas”, em uma clara referência à administração norte-americana.
Um dos pontos mais contundentes da crítica foi direcionado ao projeto “Domo Dourado” dos EUA, um sistema de defesa antimísseis inspirado no Domo de Ferro de Israel. Pequim e Moscou consideram que este projeto, que visa construir um sistema de defesa ilimitado e global, representa uma “ameaça óbvia à estabilidade estratégica”, contradizendo o princípio fundamental da interconexão entre armas estratégicas ofensivas e defensivas.
Ataques a ações militares e tratados internacionais
A declaração conjunta também abordou outras políticas dos EUA, acusando Washington de adotar uma “política irresponsável” ao permitir que o Tratado Novo Start de 2010, de limitação de armas nucleares entre Estados Unidos e Rússia, expirasse sem um substituto. Essa crítica ressalta a preocupação com a corrida armamentista e a desestabilização do controle de armas.
Adicionalmente, os líderes de China e Rússia expressaram a opinião de que ataques militares dos EUA e de Israel contra o Irã violam o direito internacional e as normas fundamentais das relações internacionais, minando gravemente a estabilidade no Oriente Médio. Eles também criticaram ações como o assassinato de líderes de países soberanos, a desestabilização política interna e o sequestro de líderes nacionais para julgamento, citando exemplos que, segundo eles, violam o direito internacional.
Contexto geopolítico e implicações futuras
O encontro em Pequim e a declaração conjunta ocorrem em um momento de crescente polarização global. A China, que publicamente se declara neutra no conflito na Ucrânia, tem sido observada treinando militares russos, o que adiciona complexidade à sua posição. A Rússia, por sua vez, tem emitido alertas sobre uma escalada com a OTAN, mencionando “consequências catastróficas”.
Esses desenvolvimentos sugerem uma consolidação do bloco sino-russo como um contrapeso à influência ocidental, especialmente dos Estados Unidos. A busca por um mundo multipolar, conforme articulado pelos dois líderes, indica uma intenção de redefinir as dinâmicas de poder globais, com implicações significativas para a segurança e a economia internacional.
Fonte: gazetadopovo.com.br
