A recente reunião de ministros das Relações Exteriores do BRICS em Nova Délhi, Índia, concluiu nesta sexta-feira (15) sem uma posição unificada sobre o conflito regional, conforme revelado pela declaração final do bloco. O documento, emitido pela presidência indiana, explicitou a existência de “diferentes pontos de vista” entre os membros, especialmente em relação à situação na Ásia Ocidental e Oriente Médio. Este desfecho sublinha os desafios enfrentados pelo grupo ampliado para forjar uma frente comum em questões geopolíticas sensíveis.
A ausência de um consenso claro foi particularmente notável devido às tensões entre o Irã e os Emirados Árabes Unidos, ambos novos membros do BRICS. As acusações mútuas e as reservas expressas por um dos países sobre a declaração conjunta destacaram as profundas divisões internas, impedindo que o bloco formulasse uma condenação ou posicionamento unificado sobre a guerra na região.
Divergências no BRICS sobre o conflito regional
A cúpula, que durou dois dias, teve como um dos pontos centrais a discussão sobre a crise no Oriente Médio. A declaração da presidência indiana reconheceu abertamente que “Houve opiniões diferentes entre alguns membros com relação à situação na região da Ásia Ocidental e Oriente Médio”. Os representantes dos países membros, incluindo Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além dos recém-integrados, apresentaram suas “respectivas posições nacionais e compartilharam uma variedade de perspectivas”.
Este cenário contrasta com a expectativa de que o BRICS, como um bloco emergente de influência global, pudesse articular uma voz mais coesa em crises internacionais. A impossibilidade de emitir uma declaração conjunta pactuada por todos os membros reflete a complexidade de harmonizar interesses e alianças diversas dentro de um grupo em rápida expansão.
Irã acusa Emirados Árabes Unidos de bloquear declaração conjunta
A principal fonte de discórdia emergiu das acusações do ministro das Relações Exteriores do Irã, Abbas Araghchi. Na quinta-feira (14), Araghchi havia solicitado que o BRICS condenasse os Estados Unidos e Israel pelo conflito contra os iranianos, iniciado em 28 de fevereiro e sob um cessar-fogo tenso desde 7 de abril. Ele também acusou os Emirados Árabes Unidos de auxiliar na “agressão” contra o regime persa.
Nesta sexta-feira, Araghchi reiterou que um membro do BRICS “bloqueou” uma declaração conjunta sobre o conflito no Oriente Médio, atribuindo a ação à “relação especial” desse país com Israel e os Estados Unidos. Embora não tenha nomeado diretamente, a referência clara era aos Emirados Árabes Unidos. O ministro iraniano afirmou que “Esse país não foi nosso alvo durante a guerra, apenas as bases americanas no seu território. O único motivo para não haver uma declaração é o seu apoio aos EUA e a Israel”.
Expansão do BRICS e o desafio da unidade
A reunião marcou a participação de novos membros que ingressaram em janeiro de 2024, incluindo Egito, Etiópia, Emirados Árabes Unidos e Irã. A Indonésia também se juntou ao grupo em 2025, ampliando significativamente a diversidade de interesses e alinhamentos geopolíticos dentro do bloco. Essa expansão, embora fortaleça a representatividade global do BRICS, também introduz desafios consideráveis para a obtenção de consenso em temas delicados.
A declaração final evitou qualquer condenação direta aos Estados Unidos e Israel, apesar das pressões iranianas. O documento, no entanto, mencionou que “muitos membros destacaram o impacto dos recentes acontecimentos sobre a situação econômica mundial”. As divisões foram tão profundas que a presidência indiana precisou adicionar notas em seções sobre a Faixa de Gaza e o Mar Vermelho, esclarecendo que “um membro tinha reservas sobre alguns aspectos deste parágrafo”.
Implicações da falta de consenso em meio a tensões regionais
A ausência de uma posição unificada do BRICS sobre o conflito regional ocorre em um momento de crescente instabilidade no Oriente Médio. Em abril, o governo dos Emirados Árabes Unidos havia exigido que o Irã compensasse os danos causados por ataques a países do Golfo Pérsico durante o conflito contra os Estados Unidos e Israel, embora Teerã afirme ter visado apenas bases americanas. Relatos do The Wall Street Journal indicaram que os Emirados Árabes teriam inclusive realizado operações militares contra o Irã no início de abril, além de interceptar mísseis e drones iranianos.
A declaração desta sexta-feira, apesar das divergências, enfatizou a importância de uma “pronta resolução da crise atual”, o “valor do diálogo e da diplomacia”, o “respeito à soberania e à integridade territorial”, e a “importância de um fluxo seguro e sem obstáculos do comércio marítimo através das vias internacionais”. Esses pontos refletem um esforço para encontrar um terreno comum em princípios gerais, mesmo diante da incapacidade de concordar sobre a responsabilidade ou condenação específica. A capacidade do BRICS de atuar como um ator geopolítico coeso dependerá de sua habilidade em gerenciar essas tensões internas e encontrar soluções diplomáticas para suas próprias divergências. Para mais informações sobre a formação e os objetivos do BRICS, um bloco que busca redefinir as dinâmicas econômicas e políticas globais, pode-se consultar fontes especializadas em relações internacionais como a Organização das Nações Unidas.
Fonte: gazetadopovo.com.br
