No Brasil, o consórcio é uma modalidade consolidada para a aquisição de bens e formação de poupança. Contudo, em mercados internacionais como os Estados Unidos, essa alternativa é praticamente inexistente. Três empreendedores brasileiros estão determinados a mudar essa realidade, introduzindo um modelo inspirado no consórcio, mas adaptado às especificidades regulatórias e financeiras americanas. É nesse contexto que a Savings.Club, uma fintech inovadora, surge com a missão de democratizar o acesso a bens no exterior.
consorcio: cenário e impactos
Liderada por JP Galvão, Adriano Marques e Fernando Lamounier, a empresa desenvolveu uma solução proprietária e patenteada para lançar seu produto nos EUA. Focando inicialmente em comunidades brasileiras e latino-americanas já familiarizadas com o conceito, a Savings.Club já acumula mais de R$ 25 milhões em contratos, validando sua operação em menos de um ano. A fintech movimenta mais de R$ 3 milhões em novos contratos mensalmente, com mais de 100 clientes ativos e 41 revendedores, e já realizou quatro contemplações.
A gênese do consórcio americano: uma solução para o mercado dos EUA
A ideia para a Savings.Club nasceu da observação de JP Galvão, que, residindo nos Estados Unidos, percebeu o impacto do aumento das taxas de juros sobre clientes e concessionárias. Com as taxas de rejeição para financiamento de carros saltando de 4%-6% para 25% no período pós-pandemia, a necessidade de uma alternativa se tornou evidente. A partir dessa constatação, Galvão vislumbrou a oportunidade de adaptar o modelo de consórcio ao mercado americano.
Para aprofundar o conhecimento sobre o produto, Galvão buscou a expertise de Luiz Otávio Matias, ex-vice-presidente do Itaú e fundador do Itaú Consórcio. Posteriormente, ele se conectou com Adriano Marques, um engenheiro de software brasileiro que já desenvolvia uma solução tecnológica e jurídica para viabilizar o consórcio nos EUA desde 2019. A parceria entre os dois se consolidou e, mais tarde, Fernando Lamounier, sócio da administradora brasileira Multimarcas e formado em Yale, uniu-se ao grupo, inicialmente como investidor e membro do conselho, e depois como CRO da operação.
Superando desafios regulatórios com tecnologia proprietária
A adaptação do consórcio para o mercado americano enfrentou um grande obstáculo regulatório: o mecanismo de contemplação. No Brasil, sorteios são amparados pela Loteria Federal, mas nos EUA a loteria é ilegal em quase todos os estados. Lances, por sua vez, exigem licenças estaduais específicas, inviabilizando uma implementação nacional padronizada. A solução encontrada pela Savings.Club foi criar um sistema proprietário de seleção baseado em risco.
Adriano Marques explica que a sociedade americana já compreende o conceito de risco atrelado ao crédito, como o credit score. Assim, a fintech desenvolveu a Rotex IA, um algoritmo de inteligência artificial com três patentes pendentes. Essa tecnologia combina dados públicos e privados, comportamento financeiro e histórico de pagamentos para gerar o Savings Score, um sistema de pontuação de risco individual dentro do grupo. Os clientes podem acompanhar sua posição no ranking pelo aplicativo e melhorar sua pontuação, por exemplo, adiantando pagamentos. Periodicamente, novas cartas de crédito são liberadas para os participantes com melhor classificação.
Expansão e projeções ambiciosas para o futuro
Atualmente, a Savings.Club concentra suas operações no segmento automotivo, oferecendo grupos de crédito entre US$ 20 mil e US$ 40 mil. A próxima fronteira de expansão é o mercado de imóveis comerciais, com créditos a partir de US$ 200 mil. Segundo Adriano Marques, a entrada no setor imobiliário representa um salto significativo na escala de valores e uma diferença ainda maior em relação aos financiamentos tradicionais.
A nova licença para imóveis comerciais permitirá à empresa atuar em todo o território americano, superando as restrições estaduais do produto automotivo, que atualmente limita a atuação a Texas, Flórida, Massachusetts e Connecticut. Com essa expansão e o crescimento da rede de revendedores, a Savings.Club projeta um aumento agressivo no volume de contratos, visando alcançar a marca de US$ 1 bilhão em cerca de um ano. JP Galvão reforça que essas projeções são “absolutamente factíveis” e fazem parte do planejamento estratégico da empresa.
Estratégia de mercado e o público-alvo inicial
A estratégia de entrada da Savings.Club foi intencional: iniciar com públicos que já compreendem o conceito de consórcio. JP Galvão destaca que, ao mencionar “consórcio” para um brasileiro ou “tanda” para um mexicano, a compreensão é imediata. Com uma comunidade expressiva de brasileiros e latinos nos EUA, concentrada justamente nos estados onde a empresa já opera, o público inicial foi cuidadosamente delimitado.
Essa abordagem é estratégica, pois latinos e brasileiros frequentemente enfrentam custos mais elevados em financiamentos tradicionais nos EUA, tornando o produto da Savings.Club ainda mais relevante e atrativo para eles. A familiaridade cultural com modelos de poupança coletiva facilita a adoção e o engajamento com a proposta da fintech.
Visão de futuro: além dos bens tradicionais
Além dos segmentos tradicionais de carros e imóveis, a Savings.Club vislumbra uma aposta disruptiva: robôs autônomos. Adriano Marques acredita que, com o avanço da robótica e dos veículos autônomos, mais pessoas buscarão investir nesses produtos como fontes alternativas de renda. A fintech já está desenvolvendo um programa para que os clientes possam financiar a aquisição desses robôs no momento em que eles se tornarem mais acessíveis no mercado.
Fernando Lamounier compara essa visão à “Corrida do Ouro”, onde “quem fica rico é quem vende a pá”. Ele expressa a convicção de que o consórcio, com seu modelo de juros baixos, será a forma predominante de financiar a posse de carros e robôs autônomos no futuro, em contraste com os modelos de financiamento tradicionais de juros altos. A empresa também está preparada para a entrada de grandes players do mercado financeiro, bancos e montadoras, com patentes pendentes que protegem seu modelo tecnológico e conversas já em andamento para colaborações estratégicas, visando criar uma infraestrutura de negócios para os EUA.
Fonte: startups.com.br
