No canal Ofogh, um militar ensina o apresentador Hosein Hoseini a armar e disparar um fuzil AK-47. (Foto: Reprodução/YouTube

Irã mobiliza civis e crianças em meio a tensões crescentes com os Estados Unidos

BeeNews 23/05/2026 | 22:01 | Brasília
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O regime islâmico do Irã intensificou, neste final de semana, uma mobilização de guerra que envolve tanto o treinamento militar de civis pela televisão estatal quanto o recrutamento formal de crianças a partir dos 12 anos. Essas crianças são designadas para postos de controle e patrulhas em Teerã, em um cenário de cessar-fogo cada vez mais frágil e a ameaça iminente de retomada de bombardeios americanos.

A iniciativa iraniana ocorre em um momento de alta tensão geopolítica, onde as negociações de paz, mediadas pelo Paquistão, permanecem estagnadas. A estratégia do regime parece visar a preparação da população para um possível recrudescimento do conflito, utilizando meios de comunicação e a própria juventude do país para reforçar suas defesas.

Mobilização de guerra: treinamento televisivo e propaganda

Em uma série de transmissões ao vivo realizadas pela Islamic Republic of Iran Broadcasting (IRIB), a TV estatal iraniana, apresentadores e militares têm ensinado o público civil a manusear armamentos pesados. Entre as armas demonstradas estão fuzis AK-47, metralhadoras PK, fuzis de precisão Dragunov e lançadores RPG-7, evidenciando a abrangência do treinamento.

Em um desses programas, exibido pelo canal Ofogh, o âncora Hosein Hoseini chegou a disparar uma arma no estúdio, direcionando o tiro a uma bandeira dos Emirados Árabes Unidos projetada ao fundo. Outro exemplo da retórica belicista foi a apresentadora Mobina Nasiri, do canal Channel 3, que segurou um fuzil diante das câmeras e declarou estar “pronta para sacrificar minha vida pelo meu país”.

As transmissões também incluíram simulações de tiro contra imagens dos rostos do presidente americano, Donald Trump, e do primeiro-ministro israelense, Benjamin Netanyahu. Além dos estúdios, cenas de treinamento foram exibidas em mesquitas de cidades como Ahvaz, Kerman, Shiraz e Zahedan, mostrando homens, mulheres e crianças apresentados como voluntários para “lutar contra os Estados Unidos e Israel”.

Recrutamento infantil: violações e condenação internacional

A mobilização de menores para o conflito é uma das facetas mais controversas da estratégia iraniana. Segundo a agência de notícias AFP, cabines de treinamento foram instaladas em praças públicas de Teerã, onde militares da Guarda Revolucionária Islâmica ensinam civis, incluindo crianças, a montar, desmontar e disparar fuzis Ak-47. O militar iraniano Nasser Sadeghi, citado pela AFP, afirmou que o objetivo é “promover a cultura do martírio e vingar o sangue do líder”, em referência ao ex-aiatolá Ali Khamenei.

A emissora Euronews divulgou relatos sobre o recrutamento de crianças pela Guarda Revolucionária Islâmica para atuar na guerra, uma prática que já resultou em mortes. Alireza Jafari, um menino de 11 anos, foi uma das vítimas, morto por um drone israelense em um posto de controle militar em Teerã. A mãe do menino, em entrevista a veículos iranianos, relatou que o pai o levou ao posto por “falta de pessoal”, e que adolescentes de 15, 16 anos ou mais jovens eram comumente vistos nesses locais.

Desde março, o Irã tem convocado crianças para atuar em seus postos militares de controle por meio da campanha “Combatentes em Defesa da Pátria”, que estabelece a idade mínima de 12 anos para o alistamento. Rahim Nadali, vice-comandante da unidade Mohammad Rasoul Allah da Guarda Revolucionária de Teerã, afirmou que adolescentes de 12 e 13 anos têm “manifestado interesse em participar de patrulhas operacionais e de inteligência”, desempenhando funções como operar postos de controle, escoltar comboios e prestar apoio logístico.

Organizações internacionais têm condenado veementemente essa prática. A Human Rights Watch (HRW) classificou a mobilização de menores de 15 anos como uma “grave violação dos direitos das crianças e um crime de guerra”. Bill Van Esveld, diretor-associado de direitos da criança da HRW, destacou que as autoridades iranianas “estão aparentemente dispostas a arriscar a vida de crianças em troca de mais mão de obra”. A Anistia Internacional lembrou que o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional (TPI) considera o alistamento de menores de 15 anos um crime de guerra, e que o Irã é signatário da Convenção da ONU sobre os Direitos da Criança.

Desespero do regime: análise e contexto geopolítico

Analistas internacionais avaliam que a convocação de civis pela TV estatal e o recrutamento de crianças são indicativos do “desespero” do regime iraniano. Lisa Daftari, especialista em Oriente Médio e contraterrorismo, afirmou à Fox News que Teerã “nunca hesitou em usar seu próprio povo como escudo”, e que a diferença agora é que isso ocorre “na frente das câmeras, em tempo real”. Daftari também apontou o histórico do Irã de usar áreas civis para proteger estruturas militares, prática replicada por grupos como Hezbollah e Hamas.

Holly Dagres, especialista em Irã do think tank The Washington Institute for Near East Policy, disse à BBC que o uso militar de crianças “ressalta o desespero” do regime e a sua impopularidade entre a própria população. A analista sugere que a dificuldade em recrutar adultos para postos de segurança pode estar levando o regime a recorrer a menores, indicando possíveis deserções nas fileiras da milícia Basij e de unidades militares iranianas.

O recrutamento de menores não é inédito na história do regime islâmico. Durante a guerra Irã-Iraque (1980-1988), a Anistia Internacional documentou que mais de 550 mil crianças foram enviadas à frente de batalha, com ao menos 36 mil mortes. A HRW também registrou, em 2017, o uso de crianças afegãs refugiadas no Irã como soldados na guerra civil síria, em apoio a Bashar al-Assad.

As negociações de paz com os EUA estão estagnadas, com Washington exigindo o fim do programa nuclear iraniano, a reabertura do Estreito de Ormuz e o fim do financiamento a grupos terroristas. Teerã, por sua vez, demanda o fim das sanções, a retirada de tropas americanas e o descongelamento de fundos. O presidente Trump alertou que “o tempo está se esgotando” para o Irã, e o Departamento de Guerra já prepara cenários para a retomada dos ataques aéreos, com discussões recentes na Casa Branca sobre novas opções militares.

Fonte: gazetadopovo.com.br

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