A percepção dos Estados Unidos como um aliado confiável na Europa sofreu uma queda significativa, conforme revelado por uma pesquisa recente. Divulgados nesta quarta-feira, os dados de um estudo conduzido pelo think tank Conselho Europeu de Relações Exteriores (ECFR), com sede em Berlim, apontam para uma crescente desconfiança e uma reavaliação do papel americano no cenário geopolítico europeu. A pesquisa sublinha uma mudança notável na forma como os cidadãos europeus veem a relação transatlântica, com a maioria agora considerando os EUA mais como um “parceiro necessário” do que como um verdadeiro aliado.
Percepção dos Estados Unidos como Aliados Diminui na Europa
Os resultados da pesquisa são claros: apenas 11% dos entrevistados europeus consideram os Estados Unidos um aliado do continente. Este número representa uma diminuição em relação aos 16% registrados em uma pesquisa anterior, realizada há seis meses, e uma queda ainda mais acentuada em comparação com os 22% de novembro de 2024. Em contraste, uma parcela considerável de 25% dos europeus vê os Estados Unidos como um rival ou adversário, enquanto quase metade dos entrevistados os enxerga como um “parceiro necessário”, e não mais como um aliado incondicional.
O levantamento foi encomendado pelo ECFR e conduzido pelos institutos YouGov, Mandate Research e Turu-uuringute. Realizada em maio, a pesquisa ouviu um total de 19.481 pessoas em 15 países europeus, incluindo Áustria, Bulgária, Dinamarca, Estônia, França, Alemanha, Hungria, Itália, Holanda, Polônia, Portugal, Espanha, Suécia, Suíça e Reino Unido, abrangendo uma vasta amostra da opinião pública continental.
Fatores de Atrito e Desconfiança Transatlântica
Diversos pontos de tensão têm contribuído para essa mudança na percepção europeia. Desde que o presidente americano, Donald Trump, reassumiu a Casa Branca em janeiro de 2025, suas ameaças de retirar os Estados Unidos da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN) têm gerado preocupação. Trump argumenta que outros membros da aliança não apoiaram Washington adequadamente em um conflito contra o Irã, citando especificamente o veto da Itália e da Espanha ao uso de suas bases militares para ações relacionadas a esse confronto.
Além das questões de defesa, as relações comerciais também têm sido fonte de atrito. Disputas tarifárias, sanções impostas por órgãos da União Europeia a grandes empresas de tecnologia americanas e o desejo de Trump de anexar a Groenlândia, um território dinamarquês, acompanhado de ameaças de sobretaxar países europeus que se opusessem à ideia, são exemplos claros das tensões que permeiam a agenda transatlântica. Esses fatores, combinados, alimentam a percepção de que os interesses americanos podem, em certos momentos, divergir significativamente dos interesses europeus.
O Futuro da Defesa Europeia e a OTAN
Apesar da crescente desconfiança em relação aos Estados Unidos, a pesquisa revela uma divisão de opiniões sobre o futuro da arquitetura de defesa europeia. Apenas 29% dos entrevistados apoiam a ideia de substituir a OTAN por uma organização de defesa exclusivamente europeia. Essa proporção é quase idêntica à dos 28% que se opõem à proposta, indicando uma falta de consenso claro sobre a substituição da aliança transatlântica.
Este cenário complexo sugere que, embora haja um desejo por maior autonomia estratégica na Europa, a dependência e a importância da OTAN para a segurança do continente ainda são amplamente reconhecidas. A hesitação em abandonar a estrutura existente da OTAN, mesmo diante de atritos com os EUA, reflete a dificuldade de construir uma alternativa robusta e unificada que possa garantir a segurança europeia de forma independente.
Implicações para as Relações Internacionais
Os resultados desta pesquisa lançam luz sobre um período de redefinição nas relações entre a Europa e os Estados Unidos. A diminuição da percepção de aliança e o aumento da visão dos EUA como um “parceiro necessário” ou até mesmo um “rival” indicam que a Europa busca uma postura mais autônoma no cenário global. Essa mudança pode impulsionar iniciativas de defesa e política externa mais coordenadas dentro da União Europeia, visando fortalecer sua própria capacidade de atuação.
A dinâmica observada na pesquisa sugere que os líderes europeus precisarão navegar cuidadosamente entre a manutenção de laços essenciais com Washington e o desenvolvimento de uma identidade estratégica própria. A complexidade das relações transatlânticas, marcada por interesses convergentes e divergentes, continuará a moldar as políticas de segurança e comércio em ambos os lados do Atlântico nos próximos anos. Para mais informações sobre o trabalho do think tank, visite o site do ECFR.
Fonte: gazetadopovo.com.br
