Tânia Rêgo

Ebola: mortes marcam protestos no Quênia contra centro de quarentena dos EUA

BeeNews 10/06/2026 | 15:39 | Brasília
4 min de leitura 799 palavras

A construção de um centro de quarentena para cidadãos estadunidenses expostos ao vírus ebola no Quênia tem provocado uma onda de protestos no país africano, resultando em três mortes. O acordo entre os Estados Unidos e o Quênia, mantido em sigilo, gerou grande apreensão entre a população, que teme riscos à saúde pública devido à proximidade com os epicentros do surto viral no continente.

A controvérsia destaca a complexidade das relações internacionais em contextos de crise sanitária e as tensões entre governos e suas populações. A situação é agravada pelo fato de o Quênia, com cerca de 56 milhões de habitantes, fazer fronteira com Uganda e a República Democrática do Congo (RDC), países onde casos de ebola têm sido registrados, levando a Organização Mundial da Saúde (OMS) a classificar o Quênia como um país em risco de contaminação.

Escalada da Tensão e Vítimas Fatais em Protestos

Os protestos contra a instalação do centro de quarentena escalaram, culminando na morte de três manifestantes. Nessa terça-feira (9), a Comissão de Direitos Humanos do Quênia (KHRC) denunciou o assassinato de mais uma pessoa em um protesto na capital, Nairóbi. Segundo a organização, outras duas mortes já haviam ocorrido na semana anterior pelo mesmo motivo.

Em comunicado, a KHRC afirmou que a polícia destacada em Nairóbi atirou e matou um manifestante. Os moradores, por sua vez, saíram às ruas exigindo transparência sobre a instalação do centro apoiado pelos EUA e garantias sólidas para a proteção da saúde pública local.

O Acordo Secreto e a Apreensão Pública

O acordo para a criação do centro de quarentena foi feito secretamente entre o governo do Quênia e a administração de Donald Trump, sem que os detalhes fossem divulgados à população. Natalia Fingermann, coordenadora do Núcleo de Estudos e Negócios Africanos (Nenaf) da ESPM, explicou à Agência Brasil que, embora o Quênia não tenha registrado casos de ebola, a falta de transparência gerou grande apreensão.

A professora de relações internacionais da ESPM destacou que a juventude e a população de Nairóbi ficaram muito preocupadas com a decisão. A revelação do acordo ocorreu em uma comunicação do governo Trump sobre a ajuda prestada pela Casa Branca ao continente africano para enfrentar o surto de ebola, classificado como emergência global pela OMS.

A especialista ressaltou que a questão coloca a saúde pública da população em risco, pois não há informações claras sobre a construção, localização ou condições de operação do centro.

Intervenção Judicial e Posição Diplomática dos EUA

Diante da crescente insatisfação e das preocupações com a saúde pública, o Tribunal Superior de Nairóbi emitiu uma ordem cautelar suspendendo a instalação do centro de quarentena. O local previsto para a unidade era Laikipia, a cerca de 150 quilômetros da capital, e a mídia local informou que o centro teria 50 leitos, com previsão de expansão para até 250.

O jornal Kenyans reportou que o tribunal proibiu especificamente os réus de admitirem, transferirem, receberem ou facilitarem a entrada no Quênia de pessoas expostas ou infectadas com o vírus ebola, conforme o acordo com os EUA. Em resposta, a Embaixada dos EUA no Quênia divulgou uma nota afirmando que trabalha para resolver qualquer obstáculo na resposta conjunta dos dois países contra o surto.

A representação de Washington no Quênia garantiu que a unidade de bioisolamento em Laikipia faz parte de uma resposta abrangente para prevenir a disseminação da doença e reduzir os riscos à saúde em toda a região, não representando perigo para as comunidades vizinhas. A declaração pode ser consultada no site da embaixada.

Cenário do Surto de Ebola na África

A professora Natalia Fingermann também mencionou que o presidente do Quênia, William Ruto, tem adotado uma política alinhada à pauta ocidental na região, com características autoritárias. O país já vinha de semanas de protestos contra o governo, especialmente devido ao aumento do preço dos combustíveis, um cenário que se insere no contexto da guerra contra o Irã e suas perturbações no mercado global de petróleo.

Paralelamente, autoridades de saúde africanas, em colaboração com organismos internacionais, intensificam os esforços para conter o surto da rara cepa Bundibugyo do ebola, para a qual ainda não existe vacina ou tratamento. Este surto, o terceiro maior já registrado, tem avançado rapidamente. A União Africana e a Organização Mundial da Saúde (OMS) publicaram um plano para conter a expansão do vírus, considerado altamente mortal.

Até o dia 8 de junho, foram confirmados 626 casos na República Democrática do Congo (RDC), com 112 mortes associadas ao vírus. Em Uganda, foram registrados 19 casos e duas mortes. Os dados são consolidados pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC) da União Africana, com informações dos ministérios da Saúde da RDC e de Uganda.

Fonte: agenciabrasil.ebc.com.br

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