Brasil em xeque: Cautela com EUA e Irã é chave para diplomacia e comércio, dizem especialistas

BeeNews 01/03/2026 | 08:20 | Brasília
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Especialistas apontam necessidade de cautela brasileira diante de tensões entre EUA e Irã, com foco em manter relações diplomáticas e comerciais.

O Brasil se encontra em uma posição delicada diante da escalada de conflitos entre Estados Unidos e Irã. A necessidade de manter uma postura cautelosa é destacada por especialistas em relações internacionais, que ressaltam o complexo cenário diplomático e econômico enfrentado pelo país.

De um lado, o Brasil busca avançar em negociações tarifárias com os Estados Unidos, um parceiro comercial crucial. De outro, o Irã é um membro influente do Brics, grupo que reúne nações emergentes e com interesses em redefinir a ordem internacional.

Nesse contexto, a diplomacia brasileira se vê na tarefa de equilibrar interesses divergentes, evitando posições que possam prejudicar relações estratégicas. A informação é de especialistas ouvidos pela Agência Brasil, que analisaram o comunicado oficial do governo brasileiro condenando a ofensiva e defendendo o diálogo.

A difícil arte do equilíbrio diplomático brasileiro

O professor Feliciano de Sá Guimarães, do Instituto de Relações Internacionais da USP, avalia que o Ministério das Relações Exteriores precisa de uma posição intermediária. “Como o Irã agora é um membro dos Brics, o Brasil se coloca em uma posição difícil de criar um tipo de posição em que não seja abertamente contra o Irã e não seja abertamente contra os Estados Unidos, dado que o Brasil tem essa negociação com os Estados Unidos”, explicou.

Essa negociação mencionada por Guimarães refere-se às tarifas de importação impostas pelo governo de Donald Trump em agosto passado, que chegaram a taxar produtos brasileiros em até 50%. O Brasil busca reverter ou amenizar essas tarifas, o que torna o diálogo com os EUA ainda mais sensível.

A entrada do Irã no Brics em 2024 adiciona outra camada de complexidade. O grupo, que já conta com Rússia e China como fundadores e aliados do Irã, tem como um de seus objetivos teóricos a mudança da ordem internacional, o que exige uma coordenação entre os membros.

Interesses comerciais em jogo com o Irã

Leonardo Paz Neves, pesquisador da FGV, aponta que o Brasil possui um comércio significativo com o Irã, especialmente na exportação de produtos agrícolas. Em 2025, a corrente de comércio entre os dois países atingiu US$ 3 bilhões, com o Brasil registrando um superávit expressivo.

O principal produto de exportação brasileiro para o Irã é o milho não moído, seguido pela soja. Uma escalada do conflito no Oriente Médio, com possíveis bloqueios navais americanos, poderia dificultar o envio dessas exportações, afetando setores específicos da economia brasileira e a perda de um comprador importante.

O pesquisador também ressalta que o Brasil tem adotado uma postura cautelosa em relação a intervenções externas, defendendo a autodeterminação dos povos e a não ingerência. Intervir em conflitos que visam mudar regimes políticos de outras nações vai contra esses princípios defendidos historicamente pelo país.

Cautela antecipada e efeitos econômicos potenciais

Williams Gonçalves, professor aposentado de Relações Internacionais da Uerj, destaca que a cautela brasileira também se deve a ações passadas de governos americanos na região. A captura de Nicolás Maduro na Venezuela, citada por ele como um exemplo de intervenção, reforça a necessidade de o Brasil agir com prudência.

Ainda que a posição oficial do governo brasileiro tenha sido de condenação à ofensiva e defesa da negociação, a expectativa é de que o Brasil mantenha uma crítica institucional, sem se envolver diretamente no conflito. O foco principal reside em não antagonizar com os Estados Unidos, especialmente considerando a possibilidade de um encontro entre o presidente Lula e Donald Trump.

Os efeitos econômicos diretos do conflito para o Brasil, segundo Neves, podem se manifestar principalmente no aumento do preço do petróleo, gerando inflação e impactando diversas cadeias produtivas. A manutenção de um canal de comunicação aberto com o Irã, apesar das tensões, é vista como fundamental para mitigar esses riscos.

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