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Crises internas e queda de popularidade abalam imagem de Putin na Rússia

BeeNews 08/05/2026 | 22:37 | Brasília
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A imagem de Vladimir Putin como um líder inabalável da Rússia enfrenta um período de desafios sem precedentes. Pela primeira vez em mais de duas décadas no poder, o ditador russo lida simultaneamente com uma economia em recessão, uma notável queda em sua popularidade e um crescente ambiente de insegurança. Este cenário se reflete em eventos simbólicos e nas análises de especialistas, que apontam para um desgaste significativo de sua autoridade.

A situação atual é marcada por uma combinação de pressões econômicas, sociais e políticas que têm gerado um coro de insatisfação, mesmo entre setores antes alinhados ao Kremlin. A fragilidade se manifesta desde a esfera pública, com eventos oficiais esvaziados, até os bastidores do poder, onde alertas sobre a instabilidade do regime começam a surgir.

Desfile da Vitória: Um reflexo da nova realidade russa

O tradicional desfile militar do Dia da Vitória, realizado neste sábado (9) na Praça Vermelha, em Moscou, ocorreu de forma atípica, sem a exibição de equipamentos militares pesados e com a menor presença de líderes estrangeiros da história recente do país. O Ministério da Defesa russo justificou a ausência dos blindados e armamentos pela “situação operacional atual”, um eufemismo para os frequentes ataques ucranianos com drones que têm atingido o território russo, incluindo a capital.

Na segunda-feira passada (4), por exemplo, um drone ucraniano conseguiu atravessar as defesas aéreas de Moscou e atingir um prédio de luxo próximo ao Kremlin. A imprensa internacional também foi em grande parte impedida de cobrir o evento presencialmente, que foi transmitido majoritariamente pela mídia estatal russa. Entre os poucos líderes internacionais confirmados estavam o ditador de Belarus, Alexander Lukashenko, o rei da Malásia, sultão Ibrahim Iskandar, e o líder do Laos, Thongloun Sisoulith, enquanto figuras como Xi Jinping, da China, e Kim Jong-un, da Coreia do Norte, não compareceram.

Um deputado russo e aliado de Putin, Yevgeny Popov, tentou justificar a ausência dos blindados em entrevista à emissora britânica BBC, afirmando que “Nossos tanques estão ocupados agora. Estão lutando. Precisamos deles mais no campo de batalha do que na Praça Vermelha”.

Queda na popularidade e o cenário econômico da Rússia

O índice de aprovação do regime de Putin na Rússia, embora ainda considerado alto para padrões ocidentais, tem apresentado uma queda constante. Na última semana de abril, o apoio ao governo atingiu o menor patamar desde o início da invasão da Ucrânia, em fevereiro de 2022. Pesquisas da Fundação de Opinião Pública, instituto priorizado pela imprensa alinhada ao regime, indicam que 73% dos russos avaliam o desempenho do ditador como “satisfatório”, um recuo de três pontos percentuais em comparação com o início de abril, igualando o piso histórico de popularidade registrado no fim de fevereiro de 2022.

Outro instituto, o Centro Russo de Pesquisa de Opinião Pública, estatal, registrou uma queda ainda mais acentuada, de 77,8% no início do ano para 65,6% no fim de abril, o menor nível desde antes do início da guerra. A economia russa, severamente impactada pelas sanções ocidentais, entrou em recessão nos dois primeiros meses de 2026, com retração de 1,8% do Produto Interno Bruto (PIB), dado reconhecido pelo próprio Putin.

Integrantes do alto escalão russo têm admitido o agravamento do cenário econômico. Maxim Oreshkin, vice-chefe de gabinete da Presidência, mencionou uma “situação muito difícil”, enquanto o ministro do Desenvolvimento Econômico, Maxim Reshetnikov, afirmou que as reservas que sustentaram o crescimento durante a guerra estão “amplamente esgotadas”. Segundo o economista russo Vladislav Inozemtsev, o aumento das receitas de petróleo e gás não está gerando crescimento real, sendo utilizado para cobrir dívidas. O tenente-general Thomas Nilsson, chefe do Serviço de Inteligência Militar e Segurança da Suécia, afirmou ao jornal britânico Financial Times que Moscou manipula dados e que a inflação real estaria mais próxima de 15% ao ano do que dos 5,86% oficiais, prevendo um declínio prolongado ou choque financeiro para a economia russa.

Restrições digitais e o crescente descontentamento social

As medidas de controle digital impostas pelo regime, como os bloqueios de aplicativos de mensagens e os apagões recorrentes da internet móvel, serviram de estopim para uma onda incomum de manifestações contra Putin desde o início da invasão russa à Ucrânia. O regime decidiu bloquear o WhatsApp e o Telegram, este último utilizado por mais de 100 milhões de russos mensalmente, e restringiu o acesso ao YouTube, buscando direcionar a população para o aplicativo estatal MAX, que não possui criptografia e é facilmente monitorado.

As primeiras manifestações contra as restrições ocorreram em 2025. Com o endurecimento das medidas em 2026, a insatisfação cresceu e alcançou influenciadores com milhões de seguidores, que passaram a criticar publicamente os bloqueios digitais e o distanciamento entre o Kremlin e a população. O cientista político Mikhail Komin, do Centro de Análise de Política Europeia, declarou ao jornal The New York Times que “as restrições à internet fizeram um grande número de pessoas se voltar contra a classe dirigente, se não contra o próprio Putin pessoalmente”.

Até mesmo parlamentares fiéis ao regime expressaram preocupação. Vyacheslav Gladkov, governador da região de Belgorod, alvo de ataques ucranianos, declarou estar preocupado com o impacto das restrições ao Telegram sobre a vida dos moradores que dependem do aplicativo para alertas de ataques aéreos. O Partido Comunista Russo, por sua vez, tem sido “inundado por queixas vindas de todo o país” por causa dos bloqueios, segundo o deputado Alexander Yushchenko.

Tensões políticas internas e alertas sobre o futuro da Rússia

Em meio a esse cenário pessimista, o líder do Partido Comunista, Gennady Zyuganov, fez um alerta incomum na tribuna da Duma, a câmara baixa do Parlamento russo. Ele afirmou que, se medidas urgentes não forem adotadas, “no outono [leia-se, até o final deste ano] enfrentaremos o que aconteceu em 1917”, em referência à queda do czar Nicolau II e à tomada do poder pelos comunistas liderados por Vladimir Lenin. Embora o Partido Comunista faça parte da “oposição sistêmica” tolerada pelo Kremlin, o tom do discurso chamou atenção por expor tensões que raramente aparecem de forma tão explícita dentro da estrutura política russa.

A especialista russa Tatiana Stanovaya, em artigo publicado no site Carnegie Russia Eurasia Center, aponta que Putin enfrenta um cenário de desgaste interno e divisão crescente dentro da elite, com sinais de enfraquecimento da autoridade que sustentou seu regime por mais de duas décadas. Pavel Baev, professor e pesquisador do Instituto de Pesquisa para a Paz de Oslo, compara a forma como Putin lida com a crise russa aos últimos anos da União Soviética, quando o regime admitia apenas “pequenas deficiências”. Ele observa que há hoje “um coro dissonante, mas cada vez mais alto” tentando alertar o líder russo de que a situação é mais grave do que se reconhece publicamente.

Fonte: gazetadopovo.com.br

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