A trajetória da Suécia nas últimas décadas oferece uma lição valiosa sobre a capacidade de adaptação de uma economia diante de crises profundas. Após enfrentar um colapso financeiro no início dos anos 90, o país nórdico abandonou um modelo de bem-estar social extremo para adotar políticas de responsabilidade fiscal, privatizações e livre mercado, consolidando-se hoje como uma das economias mais resilientes da Europa.
A crise dos anos 90 e a virada estratégica
Entre as décadas de 1930 e 1980, a Suécia operou sob um sistema de impostos elevados, que alcançavam 90% para as faixas de renda mais altas. Esse cenário, embora voltado para a proteção social, sufocou a competitividade das exportações e gerou déficits insustentáveis. O ponto de ruptura ocorreu no início da década de 90, quando o país viu bancos quebrarem, o desemprego saltar de 2% para 11% e as taxas de juros atingirem o patamar de 500% ao ano.
Diante do colapso, forças políticas de diferentes espectros foram forçadas a um consenso pragmático. A necessidade de sobrevivência econômica superou as divergências ideológicas, pavimentando o caminho para uma série de reformas estruturais profundas que alteraram permanentemente a relação entre o Estado e a economia sueca.
Privatizações e eficiência no setor público
Um dos pilares da transformação foi a redução da participação estatal na oferta de serviços essenciais. O governo promoveu a abertura de setores como saúde e educação para a iniciativa privada, introduzindo a concorrência como ferramenta de melhoria na prestação de serviços. Atualmente, quase metade das unidades de saúde primária no país é gerida por empresas privadas, um modelo que prioriza a eficiência operacional.
Além disso, a implementação de um teto de gastos rigoroso e a reforma do sistema previdenciário foram fundamentais para a estabilização. O modelo de previdência foi alterado de um valor fixo garantido para contas individuais vinculadas às contribuições reais de cada trabalhador, garantindo a sustentabilidade financeira do sistema a longo prazo.
Responsabilidade fiscal e perspectivas futuras
A disciplina fiscal resultou em uma das menores dívidas públicas da Europa, situada em torno de 35% do PIB. Esse cenário contrasta fortemente com nações como Itália e França, cujas dívidas superam os 100% do PIB. O sucesso dessas políticas permitiu que a renda real das famílias suecas dobrasse desde os anos 90, com projeções de crescimento que superam as da Alemanha para 2026.
Para o futuro, o Parlamento sueco aprovou a transição da regra de superávit obrigatório para uma meta de orçamento equilibrado a partir de 2027. A medida visa liberar recursos para investimentos estratégicos, como a modernização da infraestrutura, a transição energética e o fortalecimento das capacidades militares, conforme diretrizes da OTAN, garantindo que o país continue competitivo em um cenário global desafiador.
Fonte: gazetadopovo.com.br
