O sonho da China de se tornar uma potência global no futebol, impulsionado por investimentos bilionários e pelo apoio direto do líder Xi Jinping, enfrenta um cenário de desilusão. Apesar de ser a segunda maior economia do mundo, o país não conseguiu classificar sua seleção masculina para a Copa do Mundo de 2026, evidenciando o fracasso de um projeto que visava transformar o esporte em um pilar político e de prestígio internacional.
A estratégia, lançada com grande pompa, prometia uma revolução no futebol chinês, mas esbarrou em desafios complexos que vão desde a corrupção sistêmica e a falta de uma cultura de base sólida até a instabilidade financeira e a interferência política excessiva. O que era para ser um caminho para o topo do esporte mundial se transformou em um alerta sobre os perigos do crescimento artificial e da gestão centralizada.
A Ambição de Xi Jinping e as Metas Inatingíveis
Em 2011, o líder chinês Xi Jinping articulou três grandes aspirações para o futebol chinês: a qualificação da seleção masculina para uma Copa do Mundo, a sediagem do torneio e, finalmente, a conquista do título mundial. Para materializar essa visão, uma estratégia nacional foi implementada em 2016, estabelecendo metas audaciosas como a construção de 70 mil campos de futebol e a inclusão de 30 milhões de crianças na prática do esporte até 2020.
Contrariando as expectativas, o país ainda registra um número de jogadores federados inferior ao da Inglaterra, uma nação com população significativamente menor. Essa disparidade sublinha a dificuldade em traduzir o ímpeto político e o investimento em uma base sólida de desenvolvimento esportivo, essencial para o sucesso a longo prazo no futebol.
A Era dos Mega-Investimentos e o Crescimento Artificial
A partir de 2015, a Superliga Chinesa se tornou um polo de atração para estrelas globais e técnicos renomados. Clubes chineses gastaram fortunas para contratar jogadores como os brasileiros Oscar e Hulk, e o argentino Carlos Tévez. Técnicos com histórico de campeonatos mundiais, como Luiz Felipe Scolari, também foram seduzidos por propostas financeiras robustas para trabalhar no país.
No entanto, a motivação por trás desses investimentos exorbitantes não era puramente esportiva. Grandes empresas, especialmente incorporadoras imobiliárias, financiavam os times com o objetivo de agradar ao governo comunista, buscando facilitar o acesso a empréstimos e terrenos. Esse modelo de financiamento criou um crescimento financeiro artificial, desconectado da sustentabilidade e do desenvolvimento orgânico do esporte.
A Crise Imobiliária e o Desmoronamento Financeiro
A fragilidade do modelo financeiro do futebol chinês veio à tona com a crise no setor imobiliário, que era o principal pilar de sustentação dos clubes. Com a desaceleração econômica e a falência de gigantes como a Evergrande, o financiamento para os times secou abruptamente. O caso mais emblemático foi o do Guangzhou Evergrande, octacampeão nacional, que foi extinto no início de 2025.
Nos últimos anos, mais de 40 clubes profissionais fecharam as portas devido a dívidas impagáveis e à insustentabilidade financeira da liga. Esse colapso em massa revelou a dependência excessiva de capital externo e a ausência de um plano de negócios robusto que pudesse resistir às flutuações econômicas.
Escândalos de Corrupção e a Interferência Política
Paralelamente à crise financeira, o futebol chinês foi abalado por uma série de escândalos de manipulação de resultados e subornos. Recentemente, nove equipes foram penalizadas com perda de pontos, e mais de 70 pessoas foram banidas do esporte. Entre os condenados, destaca-se Li Tie, ex-técnico da seleção nacional, que recebeu uma sentença de 20 anos de prisão.
Especialistas apontam que a interferência política excessiva e uma filosofia de gestão imposta de cima para baixo, sem um foco genuíno na formação de atletas e na integridade esportiva, criaram um ambiente propício para irregularidades. A falta de autonomia e a pressão por resultados rápidos, em vez de um desenvolvimento estrutural, comprometeram a credibilidade e a ética do esporte no país.
O Impacto da Pandemia e o Agravamento da Crise
Entre 2020 e 2022, a China implementou algumas das políticas de bloqueio mais rigorosas do mundo em resposta à pandemia de COVID-19. Essa medida forçou campeonatos a serem disputados em bolhas sanitárias isoladas e com estádios vazios por longos períodos, afastando o público e descaracterizando a experiência do futebol.
Além de impactar a relação com os torcedores, a pandemia dificultou a contratação e a permanência de jogadores e técnicos estrangeiros de alto nível, que preferiram buscar mercados mais estáveis e com menos restrições. Embora não tenha sido a causa primordial do fracasso do projeto nacional, a política sanitária chinesa agravou drasticamente a crise que o esporte já enfrentava, acelerando seu declínio.
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Fonte: gazetadopovo.com.br
