JESSICA LEE/Ricardo Stuckert/Presidência do Brasil/EFE/EPA )

Geopolítica global: o impacto do encontro Lula-trump na estratégia da China para o Brasil

BeeNews 07/05/2026 | 22:33 | Brasília
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O recente encontro entre o presidente brasileiro Luiz Inácio Lula da Silva e o ex-presidente americano Donald Trump na Casa Branca, com duração de quase três horas, transcendeu a mera tentativa de reaproximação entre Brasília e Washington. A reunião revelou um pano de fundo geopolítico complexo, marcado pela crescente disputa entre Estados Unidos e China por influência econômica e estratégica na América Latina, com o Brasil emergindo como um ator central nesse cenário.

Ao final do diálogo, Lula expressou a percepção de um “passo importante na consolidação da relação com os EUA”, manifestando o desejo de que Washington retome o Brasil como um destino prioritário para investimentos, após um período em que a China expandiu significativamente sua presença na região. Essa declaração sublinha a dinâmica de poder e a busca brasileira por equilibrar suas relações com as duas maiores economias globais.

A Reaproximação Brasil-EUA e a Reação Chinesa

A China, principal parceiro comercial do Brasil, observa com atenção os movimentos de reaproximação entre Brasília e Washington. Em 2025, o Brasil foi o maior destino global dos investimentos chineses, com empresas asiáticas aportando US$ 6,1 bilhões no país, um aumento de 45% em relação ao ano anterior e o maior valor desde 2017, segundo dados do Conselho Empresarial Brasil-China (CEBC). Pequim considera o Brasil uma peça fundamental em sua estratégia de influência na América Latina.

Analistas internacionais avaliam que a China tende a reagir com cautela a essa aproximação. O estrategista internacional Cezar Roedel, citando Henry Kissinger, sugere que, enquanto os Estados Unidos jogam xadrez buscando o xeque-mate estratégico, a China adota uma abordagem de longo prazo, adicionando peças gradualmente. A expectativa é que Pequim não opte por retaliações diretas, mas sim por oferecer condições de investimento ainda mais vantajosas para competir com os EUA.

Cássio Eduardo Zen, professor de Direito Internacional, reforça que os chineses priorizam os negócios. Marco Aurélio da Silva, professor de negócios e gestão, interpreta a tentativa de aproximação com os EUA como um exercício da “autonomia estratégica” do Brasil, que busca valorizar sua posição na competição entre potências. Contudo, Silva pondera que Pequim pode ver essa movimentação como uma ofensiva americana para frear seu avanço na região.

A Disputa por Minerais Críticos: O Ponto Central da Geopolítica

Um dos pontos mais sensíveis e estratégicos da disputa entre EUA e China no Brasil é o setor de minerais críticos e terras raras. O Brasil detém 23% das reservas mundiais de terras raras, sendo o segundo maior do mundo, atrás apenas da própria China. Lula confirmou ter discutido o tema com Trump, apresentando o marco legal dos minerais críticos aprovado pela Câmara dos Deputados e defendendo o Brasil como “solo fértil” para investimentos na área.

Os Estados Unidos, por sua vez, lançaram em fevereiro o “Projeto Vault”, um plano estratégico de US$ 12 bilhões para criar um estoque nacional de terras raras e minerais críticos, visando reduzir a dependência da China. Essa iniciativa já se materializou no Brasil com a venda da mineradora Serra Verde para a americana USA Rare Earth, com participação do governo dos EUA por meio de um aporte de US$ 565 milhões da agência DFC. A operação, contudo, enfrenta questionamentos no Supremo Tribunal Federal (STF) por partidos de esquerda que alegam ferir a soberania nacional.

Apesar do interesse americano, Lula reiterou que o Brasil não ofereceu exclusividade a Washington, mantendo o país aberto a investimentos estrangeiros de diversas origens – incluindo Estados Unidos, China, Alemanha e Índia – e tratando o tema como uma questão de soberania nacional. Para Marco Aurélio da Silva, o Brasil corre o risco de se tornar um “campo de batalha” nessa disputa, embora a China mantenha sua vantagem tecnológica no processamento desses minerais.

Investimentos Estratégicos: China e EUA no Brasil

Historicamente, os Estados Unidos permanecem como os maiores investidores diretos no Brasil em estoque acumulado. Segundo o Relatório de Investimento Direto (RID) do Banco Central de 2025, o estoque de investimentos americanos somou US$ 232,8 bilhões em 2024, quase seis vezes superior ao da China, que aparece em sexto lugar com US$ 40,3 bilhões. No entanto, a natureza desses investimentos difere significativamente.

Enquanto o capital americano se concentra em setores tradicionais como serviços financeiros, tecnologia da informação e comércio, os investimentos chineses recentes têm se voltado para áreas estratégicas como eletricidade, mineração, petróleo e a indústria automotiva, com foco em carros elétricos. A China, segundo analistas, deve responder à possível maior aproximação Brasil-EUA com “capital”, reforçando sua presença através da Nova Rota da Seda e oferecendo condições de financiamento que os EUA atualmente têm dificuldade em igualar, especialmente em infraestrutura logística e energia.

Diálogos Sigilosos e Autonomia Estratégica

A longa duração da reunião entre Lula e Trump, aliada à ausência de uma coletiva de imprensa conjunta, sugere que temas sensíveis foram abordados a portas fechadas. Cezar Roedel aponta que a densidade do encontro pode ter incluído discussões sobre a possível classificação de facções criminosas brasileiras como organizações terroristas (embora Lula tenha negado), investigações americanas sobre práticas comerciais brasileiras e a venda da mineradora Serra Verde.

Em síntese, Lula buscou reduzir tensões comerciais e atrair investimentos americanos, enquanto Trump demonstrou interesse em ampliar a cooperação em segurança regional e garantir acesso a recursos estratégicos. A postura brasileira, de manter-se aberta a múltiplos parceiros e defender a soberania nacional, reflete uma estratégia de autonomia em meio à complexa dinâmica da geopolítica global.

Fonte: gazetadopovo.com.br

Palavras-chave: comércio, desenvolvimento, economia, estratégia, governo, internacionais, mercado, política, relações, segurança, brasil, china, investimentos, lula, estados, unidos, minerais, silva, trump, washington
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