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Open Finance no Brasil: o paradoxo da inovação regulatória sobre sistemas legados

BeeNews 10/06/2026 | 08:37 | Brasília
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O ecossistema do Open Finance no Brasil, que completou cinco anos em fevereiro de 2026, consolidou-se como o maior do mundo em termos de escala. Com mais de 100 milhões de contas conectadas e 154 milhões de consentimentos ativos, o volume semanal de comunicações superou 102 bilhões em 2025, um crescimento de 143% em relação ao ano anterior. Esses números expressivos posicionam o país na vanguarda das finanças abertas globais.

Contudo, por trás dessa fachada de sucesso e crescimento, existem desafios estruturais significativos que ameaçam a sustentabilidade do sistema. O principal deles reside no embate silencioso entre a rápida evolução regulatória e a realidade dos sistemas legados que fundamentam o sistema financeiro nacional, criando gargalos que impactam diretamente a experiência do usuário e a adesão de novos participantes.

A jornada do usuário: atritos e rejeições que os números não revelam

A taxa de conversão na jornada de consentimento é um indicador crucial das fragilidades do Open Finance. Dados da Associação Brasileira de Fintechs (ABFintechs) revelam que menos de 50% dos usuários que iniciam o compartilhamento de dados conseguem concluir o processo. No cenário da iniciação de pagamentos, a situação é ainda mais crítica, com menos de 30% das tentativas resultando em sucesso.

Esses índices não apontam para falhas de segurança, já que os casos de fraude no Open Finance são mínimos. O problema central reside na fricção da jornada do usuário. O fluxo atual exige que o cliente transite entre diferentes canais — como um aplicativo bancário, WhatsApp ou e-commerce — para realizar autenticações, confirmar consentimentos e retornar ao ponto de origem, muitas vezes perdendo o contexto inicial. Cada uma dessas etapas representa um potencial ponto de abandono.

Adicionalmente, um dado alarmante mostra que mais de 80% dos pagamentos que superam a jornada de consentimento são, ao final, rejeitados por saldo insuficiente. Este fato evidencia uma lacuna na arquitetura do sistema, que não integra informações básicas, como a consulta de saldo, em momentos oportunos da jornada do usuário.

Desafios da adesão empresarial: a complexidade das pessoas jurídicas no Open Finance

Enquanto a experiência da pessoa física ainda enfrenta atritos, a adesão de pessoas jurídicas (PJs) representa um desafio ainda maior. Em abril de 2025, o Banco Central registrou apenas 589 mil empresas conectadas ao ecossistema, um crescimento de 146% em 12 meses, mas ainda uma parcela ínfima do universo de CNPJs ativos no país. Atualmente, menos de 10% dos consentimentos provêm de empresas.

A complexidade operacional de uma PJ é significativamente superior à de um indivíduo. Empresas podem possuir centenas de contas bancárias distribuídas entre filiais e exigem processos rígidos de conciliação contábil. Os pagamentos recebidos via Open Finance precisam ser identificados nos extratos com o mesmo padrão do internet banking para permitir o lançamento automático na contabilidade.

Questões como a data de registro de transações realizadas em fins de semana e a definição de quem na empresa deve conceder o consentimento — um funcionário ou um sócio — ainda estão em debate. Além disso, as instituições financeiras, por razões de segurança e antifraude, frequentemente bloqueiam transações Pix de alto volume por segundo, uma situação comum para médias e grandes empresas. A ausência de processamento em lotes agrava ainda mais esse cenário.

O paradoxo do Open Finance: inovação regulatória sobre infraestrutura legada

Os gargalos mencionados — como timeouts, erros de API e baixas taxas de conversão — não são meros problemas de design de experiência. Eles são, em grande parte, sintomas de um conflito estrutural mais profundo: o Open Finance, uma arquitetura de ponta, está sendo construído sobre sistemas de retaguarda que, em muitos casos, possuem décadas de existência.

O Brasil é reconhecido internacionalmente por seu sistema financeiro altamente digitalizado, com inovações como o Pix e o próprio Open Finance. No entanto, grande parte das instituições financeiras ainda depende de sistemas legados que sustentam operações críticas há 20, 30 ou até 40 anos. Essa coexistência entre uma fachada digital moderna e um núcleo de processamento antiquado é um dos maiores desafios estratégicos de tecnologia do setor.

As arquiteturas atuais não foram concebidas para o Open Finance. Os core bancários tradicionais foram projetados para processamento batch, com janelas noturnas de conciliação e volumes de transações previsíveis. O Open Finance impõe uma lógica radicalmente diferente, exigindo chamadas de API em tempo real, autenticação via padrões como Auth 2.0 e FAPI, certificados digitais, tokens com renovação automática e latência medida em milissegundos. Com mais de 11 bilhões de chamadas de API por mês já registradas e volumes em crescimento exponencial, muitos sistemas simplesmente não conseguem atender aos SLAs exigidos pelo Banco Central. As arquiteturas monolíticas, típicas de bancos tradicionais, tornam qualquer ajuste lento e caro, gerando impactos em cascata.

Superando a lacuna: soluções e investimentos para a sustentabilidade do ecossistema

A modernização da infraestrutura não é apenas uma questão orçamentária, embora o custo seja um fator relevante. Há também uma escassez de profissionais especializados em arquitetura regulatória e padrões de segurança como OpenID e FAPI, um problema agravado pelos prazos rigorosos estabelecidos pelo Banco Central. Mesmo equipes de engenharia experientes enfrentam dificuldades para acompanhar a complexidade crescente.

O desafio é ainda mais sensível para cooperativas de crédito e instituições de médio porte, que operam com orçamentos mais restritos e sistemas que não foram originalmente projetados para integração com APIs modernas. Isso eleva o tempo, o custo e o risco de implementação. Diante da inviabilidade de substituir integralmente os core bancários no curto prazo, o mercado tem adotado uma abordagem pragmática: a criação de camadas de abstração entre o legado e o Open Finance.

Microsserviços, versionamento de APIs e plataformas de integração permitem desacoplar a lógica de negócio, gerenciar filas, monitorar fluxos e reduzir a latência, viabilizando a convivência entre sistemas antigos e componentes modernos. Embora eficazes como pontes, essas soluções adicionam complexidade e custo operacional, e não eliminam totalmente o risco de falhas quando o volume de transações pressiona a capacidade da infraestrutura subjacente.

O Open Finance brasileiro é um sucesso em escala global e possui um arcabouço regulatório maduro. No entanto, a sustentabilidade dessa liderança dependerá da capacidade de enfrentar seus gargalos estruturais. A baixa fluidez em jornadas críticas, a adesão ainda limitada de empresas e, sobretudo, a tensão entre inovação regulatória e sistemas legados não se resolvem apenas com mais regras ou prazos estendidos. Exigem investimento contínuo em infraestrutura, modernização tecnológica e formação especializada. O verdadeiro sucesso do Open Finance será medido pela sua capacidade de transformar dados compartilhados em valor percebido, com confiabilidade e fluidez, superando o paradoxo de ser inovador na superfície e dependente do legado na base.

Fonte: finsidersbrasil.com.br

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