O Brasil se encontra em uma corrida contra o tempo para transformar suas vastas reservas de terras raras em investimentos bilionários, um movimento crucial para sua soberania econômica e tecnológica. A urgência é amplificada pela crescente tensão geopolítica entre Washington e Pequim, que disputam o controle desses minerais essenciais para o desenvolvimento de tecnologias avançadas. Com a expectativa de atrair até R$ 13 bilhões em investimentos, o país busca consolidar sua posição como um fornecedor estratégico global.
A recente dinâmica do mercado e os encontros de alto nível, como a discussão entre os presidentes Luiz Inácio Lula da Silva e Donald Trump, sublinham a importância do tema. Empresas americanas, russas e chinesas já movimentam o cenário nacional, enquanto Brasília intensifica as discussões sobre o futuro desses recursos. No entanto, a janela de oportunidade é limitada, exigindo agilidade institucional para que o Brasil não perca o bonde da reconfiguração das cadeias globais.
A Geopolítica das Terras Raras e a Janela de Oportunidade
As terras raras, um grupo de 17 elementos como neodímio, disprósio e térbio, são vitais para a indústria moderna, sendo indispensáveis em semicondutores, motores de veículos elétricos e sistemas de mísseis guiados. Historicamente, a China detém uma dominância significativa, controlando aproximadamente 70% da extração e 91% da capacidade de refino global, conforme dados do Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS). Essa hegemonia permite a Pequim usar o fornecimento mineral como uma ferramenta geoeconômica, como evidenciado por restrições de exportação em 2025.
Em resposta a essa dependência, os Estados Unidos e seus aliados adotaram a estratégia de friendshoring, buscando fornecedores confiáveis fora da esfera de influência chinesa. O Brasil, com a segunda maior reserva mundial de terras raras — estimada em 21 milhões de toneladas pelo USGS —, emerge como uma alternativa natural e estratégica. A pressa de nações ocidentais em firmar acordos com o governo brasileiro reflete a corrida global por contratos de compra antecipada de longo prazo, que estão sendo selados neste momento.
O Desafio de Agregar Valor e Evitar o “Erro Colonial”
Apesar do potencial bilionário, o ponto crítico para o Brasil reside na capacidade de capturar valor ao longo de toda a cadeia produtiva. O minério bruto é frequentemente comoditizado a preços baixos, enquanto o refino químico multiplica exponencialmente seu valor. O produto final, como ímãs permanentes, ligas especiais e componentes tecnológicos, concentra a maior margem de lucro, que o Brasil historicamente tem deixado escapar.
Especialistas alertam para o risco de repetir o “erro colonial” do minério de ferro, onde o país exporta riqueza bruta para, posteriormente, recomprar tecnologia cara. Alexandre Uehara, professor de Relações Internacionais da ESPM, e Luiz Carlos Adami, especialista em direito da mineração, ressaltam que a integração passiva às cadeias estrangeiras, sem contrapartidas de refino local, pode levar à “periferização” do Brasil. Sem plantas de separação em solo nacional, o lucro da industrialização será refinado em outros países, restando ao Brasil apenas o passivo ambiental.
Movimentos do Mercado e a Judicialização de Projetos
O mercado de terras raras no Brasil já está em efervescência. A aquisição da mineradora Serra Verde, em Minaçu (GO), pela americana USA Rare Earth (USAR) por aproximadamente US$ 2,8 bilhões, é um exemplo concreto da estratégia ocidental. A mina Pela Ema é a única em operação comercial no país capaz de fornecer simultaneamente os quatro elementos magnéticos cruciais: neodímio, praseodímio, térbio e disprósio. Esta operação contou com um aporte de US$ 565 milhões da International Development Finance Corporation (DFC) em fevereiro de 2026 e faz parte do Project Vault, uma iniciativa de US$ 12 bilhões dos EUA para securitizar estoques estratégicos de defesa, incluindo um contrato de compra antecipada de 15 anos para 100% da produção da Fase 1, destinada à base industrial e militar americana.
Essa transação, contudo, gerou alertas em Brasília. O partido Rede e a deputada Heloisa Helena (Rede-AL) protocolaram uma Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) no Supremo Tribunal Federal (STF) para suspender a venda, alegando ferimento à soberania nacional. Analistas veem essa judicialização como um “cisne negro” para o setor, pois a revogação de contratos privados por decisões políticas poderia elevar o prêmio de risco do Brasil para todo o setor de infraestrutura, fechando a janela de oportunidade antes mesmo da concretização dos projetos.
Paralelamente, potências rivais também avançam. Em março, a estatal russa Rosatom, por meio de sua subsidiária Uranium One, formalizou a criação da Nadina Minerals, uma joint venture com a brasileira NBEPar para prospecção e processamento em Figueira (PR) e Caculé (BA). A China também consolidou posições, com a CNMC adquirindo a Mineração Taboca (AM) em novembro de 2024 por US$ 340 milhões, com planos de investir mais US$ 100 milhões para extrair terras raras de resíduos de estanho.
O Potencial das Argilas Iônicas e os Obstáculos em Brasília
O diferencial brasileiro reside nas argilas iônicas, que são mais fáceis de processar do que a rocha dura encontrada em outros países, exigindo menos energia e não gerando barragens de rejeitos úmidos. Isso reduz o risco ambiental e o custo de licenciamento, oferecendo aos investidores ocidentais fornecedores confiáveis e sustentáveis. No entanto, essa vantagem só será plenamente aproveitada se o país consolidar a infraestrutura de refino e garantir segurança jurídica nos próximos 24 meses.
Apesar do volume sem precedentes de interesse internacional, com sete projetos em fase pré-operacional projetando investimentos que superam os R$ 10 bilhões, a GIN Capital estima que apenas 35% desse montante será captado até 2028 sem avanços significativos no ambiente de negócios. O maior obstáculo para o Brasil cumprir o prazo não vem da geologia, mas de Brasília. O debate sobre o marco legal dos minerais críticos, especialmente o Projeto de Lei (PL 2780/24), relatado pelo deputado Arnaldo Jardim (Cidadania-SP), tornou-se um novo front de polarização.
Inicialmente, a ala mais à esquerda do PT articulou a criação da Terrabras, uma estatal mineral inspirada no regime de partilha do pré-sal, que deteria participação mínima de 50% na produção. O líder do PT na Câmara, Pedro Uczai (SC), defendeu a Terrabras como a única forma de garantir a “soberania econômica”. Contudo, especialistas e entidades do setor mineral, como a Associação de Minerais Críticos (AMC), veem a proposta como uma ameaça à atração dos R$ 13,2 bilhões em investimentos privados. Em um recuo estratégico, o governo Lula decidiu apoiar o parecer de Jardim, buscando uma via pragmática que troque o protagonismo estatal por mecanismos de incentivo privado para aproveitar a oportunidade geopolítica.
A agilidade institucional nos próximos dois anos será determinante para o sucesso do Brasil em capitalizar suas riquezas minerais, garantindo que o país não apenas extraia, mas também agregue valor a esses recursos estratégicos, consolidando sua posição no cenário global de alta tecnologia. Para mais informações sobre terras raras, consulte o Serviço Geológico dos Estados Unidos (USGS).
Fonte: gazetadopovo.com.br
